Hammerskin pai de trigémeos tem "nazi" escrito na testa?

"Nunca o teríamos recebido, se soubéssemos." Programa A Nossa Tarde, da RTP, pediu desculpa por ter convidado um neonazi com cadastro por crimes violentos como "pai de trigémeos". Redes sociais contrapõem com as tatuagens no rosto do homem: "Tem nazi escrito na testa". Tem?

No meio da testa, o escudo dos templários; ao lado, a data 1312, quando a Ordem respetiva foi extinta pelo rei de França. Há mais tatuagens no rosto de Nuno Cláudio Cerejeira, mas quem o tenha visto na TV na emissão de 24 de outubro de A Nossa Tarde, o programa da tarde da RTP, não se terá apercebido do que representam; uma delas parece a palavra "omertà" - o termo napolitano usado pelas organizações mafiosas para significar o pacto de silêncio a que se obrigam os seus membros e os impede de falar com a polícia.

Nenhuma das tatuagens à vista neste convidado do programa A Nossa Tarde por via da sua paternidade de trigémeos é pois de direta associação ao nazismo e ao grupo de skinheads -- os Hammerskins-- ao qual ainda em 2016 estava associado. Mesmo se a ligação entre os templários e a extrema-direita é conhecida - por exemplo o terrorista norueguês Anders Breivik, que a 22 de junho de 2011 matou 77 pessoas e feriu 300, assumiu-se no manifesto que publicou como "cavaleiro templário", e o australiano Brenton Tarrant, que a 15 de fevereiro atacou uma mesquita em Christchurch, na Nova Zelândia, disse ter tido a bênção dos Cavaleiros Templários Ressuscitados -, a maioria das pessoas nem sequer reconhecerá o escudo da Ordem, quanto mais a relação com ideologias extremistas.

Cerejeira ostenta também tatuagens nas mãos, mas nenhuma parece imediatamente associável ao nazismo. Não é pois correto dizer, como foi propalado nas redes sociais, que o convidado de A Nossa Tarde tem "nazi" escrito na testa, sendo certo que durante a curta entrevista que, pelos 25 minutos do programa, lhe foi feita pela apresentadora, Tânia Ribas de Oliveira, não houve qualquer pergunta sobre as ditas tatuagens e no Facebook do programa foi colocada, no dia da emissão, uma foto dele com a mulher e os bebés e a legenda "uma família maravilhosa".

"Suavizar a imagem de um criminoso"

A foto e legenda continuam no citado Facebook, mas agora, desde esta terça-feira, ali está também um comunicado assinado pela "coordenação do programa". Neste "lamenta-se o sucedido" e apresentam-se desculpas "a quem possa ter ficado ofendido" com o convite a Nuno Cerejeira. "A coordenação do programa A Nossa Tarde não teve nenhum conhecimento sobre os antecedentes criminais do pai, nem tão pouco das suas convicções políticas. Nunca o teríamos recebido, se soubéssemos."

Cerejeira foi convidado, explica-se, por ter sido pai de trigémeos e "a Fundação Ronald McDonald, da qual a Tânia Ribas de Oliveira é uma das embaixadoras", ter sugerido a sua ida ao programa com a mulher, Cláudia Saraiva, e os três bebés. A ideia da ida do homem ao programa era, frisa-se, para "falar EXCLUSIVAMENTE da experiência da paternidade a triplicar." Ana Patacho, da referida fundação, foi também convidada no programa de 24 de outubro.

Este comunicado seguiu-se a várias denúncias nas redes sociais sobre a identidade do homem apresentado como um feliz pai de trigémeos e à tomada de posição da organização SOS Racismo, também esta terça-feira.

Foi também no seu Facebook que o SOS Racismo verberou a RTP pelo convite a Cerejeira, imputando-lhe o objetivo de "suavizar a imagem de um criminoso: "Registamos que numa época em que a cavalgada populista da direita de cara lavada parece conquistar adeptos e visibilidade também em Portugal, a televisão pública, paga com dinheiro dos contribuintes, opta por suavizar a imagem de um indivíduo comprovadamente envolvido num crime de ódio racial, acerca do qual nunca demonstrou arrependimento por um segundo televisivo que fosse."

Ironizando sobre a possibilidade de "a direção de programas da RTP" ser "indiferente à possível dissonância entre a candura paternal de uma pessoa com um bebé ao colo ostentando, ao mesmo tempo, tatuagens visíveis com simbologia fascista e nazi (...)" - dando assim como provado que seria óbvio para qualquer pessoa o sentido das tatuagens - , o SOS Racismo faz uma apresentação de Cerejeira, e questiona-se sobre se a RTP sabia quem é o seu convidado. "O referido indivíduo, além de condenado a prisão efetiva por crimes de ofensas corporais e pelo seu envolvimento nesses atos de violência extrema é, também, um atual e persistente militante da causa neonazi. Como é do conhecimento público, é um dos elementos dos Hammerskins em Portugal, organização internacional criminosa e neonazi (...). No seu cardápio inclui-se ainda condenações em tribunal por crimes de roubo, sequestro, coação e posse ilegal de armas. Desconhecemos se a direção de programas da RTP ignora ou é alheia aos factos em causa."

"É uma situação complicada"

A direção de programas da RTP não fez até agora qualquer comentário sobre a situação - o DN contactou o diretor de programas, José Fragoso, por mensagem telefónica, mas este não respondeu. Tânia Ribas de Oliveira anunciou que iria publicar um comunicado próprio. Fê-lo ao fim da manhã desta quarta-feira.

A apresentadora pede desculpa, "em nome pessoal, por aquilo que designa por "erro" seu e da equipa. "Assumimos a nossa ingenuidade e até a nossa ignorância. Assumimos a nossa responsabilidade, a nossa tristeza e pedimos desculpa. Mas não poderemos nunca identificar-nos com qualquer comentário que nos relacione com quaisquer ideais que não sejam os da Igualdade, da Tolerância e do Amor. Isso, não. Como cidadã, como mulher e como mãe, abraço agora a família e amigos de Alcino Monteiro."

Já a Fundação Ronald McDonald, que está a apoiar a família em causa e, a crer no comunicado de A Nossa Tarde, é responsável pela sugestão do convite, não tomou até agora qualquer posição pública sobre o caso.

Um produtor de TV experiente, ouvido pelo DN, põe água na fervura. "A maioria das pré-entrevistas que são feitas na preparação destes programas decorrem pelo telefone, pelo que a produção não vê as pessoas. E não havia nenhum motivo para, à partida, se googlar o nome do convidado. Não é um nome tão conhecido como por exemplo o de Mário Machado, que aliás quando foi convidado para o programa do Manuel Luís Goucha foi-o mesmo pelas suas posições políticas, o que é totalmente diferente do que sucedeu aqui."

A lebre, crê este profissional que prefere não ser identificado, poderia ter sido levantada quando Cerejeira compareceu para o programa. "Aí alguém deveria ter reparado nas tatuagens e feito alguma pergunta. Mas na verdade se não são de imediato reconhecíveis como tendo associação à extrema-direita também se pode considerar que pôr em causa um convidado por causa de tatuagens seria uma coisa muito pouco liberal. É uma situação complicada." Caso alguém visse uma suástica, porém, o caso mudaria de figura: "Aí havia clara razão para não pôr a pessoa no ar."

"Chamar preto a alguém não é crime"

Cerejeira, que ainda em 2016 foi citado pelo Expresso como tendo dito "chamar preto a alguém não é crime. Agressões há todos os dias em Lisboa. Não estive envolvido em nenhuma e não me arrependo de nada do que fiz", tem pelo menos duas condenações no cadastro em processos relacionados com violência, racismo e extrema-direita.

O primeiro é relativo às agressões racistas da noite de 10 de junho de 1995, quando aos 21 anos integrou um grupo de skinheads que perseguiram e espancaram negros na zona do Bairro Alto e Chiado, em Lisboa, tendo alguns elementos desse grupo matado, à pancada, o português de origem cabo-verdiana Alcindo Monteiro. Cerejeira, segundo foi dado como provado, não participou no homicídio de Alcindo mas foi condenado por agressões a três outros negros a uma pena de dois anos e seis meses.

Em 2010 voltou a ser sentenciado, de novo a dois anos e meio (com pena suspensa) por fazer parte de um grupo de skinheads que levou a cabo uma série de sequestros e roubos. Seria ele, segundo a condenação, que atraía as vítimas ao local onde eram roubadas, sequestradas e e alguns casos torturadas. Em ambos os processos foi também condenado Mário Machado, o mais conhecido dos skinheads portugueses.

No ano anterior teria estado envolvido numa operação de Mário Machado no sul do país, quando este se terá deslocado ao Algarve com outro Hammerskin, Bruno Monteiro, para se terçar de razões com o chefe dos Hell's Angels - a quem Machado terá dado um tiro. De acordo com a PJ, que estaria na altura escutar Machado, cerejeira também estava no grupo. O chefe dos Hell's Angels, Pedro Silva, conhecido como Thor, não terá querido colaborar com as autoridades, recusando apresentar queixa.

Mais recentemente, Cerejeira, que em 2016 o Expresso referia como sobrinho-neto do cardeal Cerejeira, considerado próximo de Salazar, e dono de um local em Odivelas, o Club 38, onde se reuniriam os Hammerskins, foi detido e constituído arguido no âmbito de uma investigação da Unidade Nacional Contra Terrorismo da Polícia Judiciária, em conjunto com outros 19 indivíduos. Segundo o comunicado efetuado pela PGR, serão todos suspeitos de pertencerem "aos skinheads neonazis liderados pela Hammerskin Nation, o mais violento e organizado grupo de extrema-direita, formado em Dallas, em 1988 (...). Os membros desta organização perfilham a ideologia nazi e exaltam a superioridade da raça branca, pretendendo em Portugal expulsar ou impedir a entrada no país de todas as minorias étnicas."

Os detidos, de acordo com o comunicado que a PJ também exarou na altura, fazem parte de "uma estrutura criminosa que vinha cometendo crimes de ofensa física qualificadas, em alguns casos agravadas e até tentativas de homicídio, crimes motivados pela diferença de raça ou orientação sexual das vítimas". Os crimes em causa terão ocorrido entre 3 de novembro de 2013 e 20 de setembro de 2015. Este processo ainda não chegou a julgamento.

Na citada reportagem do Expresso, Nuno Cláudio Cerejeira, agora beneficiário da ajuda da Fundação Ronald McDonald, assumia a criação, por parte do grupo de que fazia parte, de uma associação de solidariedade e sem fins lucrativo, denominada Luz Branca, com o objetivo de "ajudar famílias desfavorecidas só brancas" e "apenas crianças brancas."

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