Famílias despejadas de casas ocupadas em Chelas

A Câmara Municipal de Lisboa garantiu apoio por duas noites num hostel e a integração nos programas autárquicos de apoio à habitação. Já em março, uma das famílias pediu ajuda à Santa Casa da Misericórdia, mas uma "falha de comunicação" dentro da instituição terá levado a que o processo nunca tivesse sido iniciado.

O aviso já tinha chegado há semanas, mas só agora se concretizou. Duas famílias que viviam em casas vazias em Chelas, Lisboa, foram na segunda-feira despejadas pela Polícia Municipal. O gabinete da vereadora da habitação da Câmara Municipal de Lisboa, que recebeu durante a tarde uma destas famílias, garantiu a estadia por duas noites num hostel e comprometeu-se a integrar o agregado nos programas de apoio habitacional.

A família de Patrícia Rebelo, uma das despejadas, acordou em sobressalto na manhã de segunda-feira. Há pelo menos dez meses que habitava ilegalmente num lote do Bairro do Condado, em Chelas. Garante que recorreu à ocupação por não ter alternativa. Com dois empregos e um ordenado líquido total de 900 euros mensais para sustentar também o filho de 16 anos e a mãe de 69, "é impossível arrendar uma casa em Lisboa". Na capital, o valor dos arrendamentos aumentou 14% desde 2014 e um T2 chega mesmo a custar 917 euros, de acordo com um estudo do Deutsche Bank.

Após o despejo, dirigiu-se à Câmara Municipal de Lisboa, onde foi recebida no gabinete da vereadora da Habitação. "Garantiram-me que vão estudar soluções, integrar-me nos programas de apoio à habitação e esta terça-feira voltaríamos a falar depois de eu ir à Santa Casa da Misericórdia tentar ver uma solução", conta.

Mas não é a primeira vez que esta família se dirige à organização para pedir apoio habitacional. Em entrevista ao DN, conta que já em março deste ano se tinha dirigido até uma unidade de emergência social, onde pediu apoio para uma qualquer alternativa à ocupação. Contudo, quando esta segunda-feira foi até à Santa Casa percebeu que nunca tinha sido aberto nenhum processo em seu nome. Admitiram uma "falha de comunicação" dentro da instituição, conta Patrícia Rebelo. Agora, terá de começar o processo do zero.

A esperança não morre, explica, mas a indignação também não. "Não sei em que mundo é que estas pessoas vivem. Quando fui recebida pela Santa Casa da Misericórdia, referiram várias vezes o facto de eu ganhar 900 euros. Perguntaram-me quanto dinheiro tinha neste momento. Disse '50 euros' e desconfiaram: 'então, mas não é 900 que ganha?'. Acham que o meu ordenado é interminável. Tenho contas para pagar, um filho e uma mãe para sustentar", lembra.

Numa curta pesquisa pela internet, quando esteve em reunião no gabinete da vereadora da Habitação, conta que até encontraram casas a rondar os 700 euros - o mais barato que encontrou até agora -, mas o processo burocrático é o maior entrave. "Exigem não só um fiador - que não tenho -, mas meses de renda adiantada", lamenta. E mesmo na melhor das hipóteses, sobrariam cerca de 200 euros mensais para Patrícia repartir pela alimentação e pelas despesas.

Para já, a família de Patrícia tem onde ficar até esta noite, mas depois disso o futuro continua incerto. Terá ainda esta manhã uma reunião na Santa Casa da Misericórdia, para estudarem o seu caso, e irão ainda aguardar por uma resposta da Câmara Municipal de Lisboa.

A associação Habita conta ao DN que a outra família despejada é constituída por uma mulher guineense, com uma saúde bastante débil, e os três filhos menores.

"Centenas" de famílias ocupam casas em Lisboa, da Ajuda a Chelas. São "sobretudo mulheres, com filhos, sem apoio dos atuais ou ex-companheiros, com baixos salários"

São "centenas" as famílias que ocupam casas vazias em Lisboa por não encontrarem alternativa, garante Rita Silva, dirigente da Habita. Embora os números oficiais não sejam conhecidos. Questionado pelo DN, o gabinete da vereadora da Habitação Paula Marques não revela quantas casas em Lisboa estão atualmente a ser ocupadas de forma abusiva. Garantem apenas que "a taxa é muito baixa relativamente às mais de 25 mil casas que existem" na cidade.

O que se sabe é que são "sobretudo mulheres, com filhos, sem apoio dos atuais ou ex-companheiros, com baixos salários", garante Rita Silva. São pessoas que, de repente, se veem em situações "muito aflitivas" e ocupam casas abandonadas. Um pouco por todos os bairros lisboetas, da Ajuda a Chelas, "a ocupação decorre de um desespero de quem não consegue encontrar mais nada".

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