A SDAL foi a responsável pela organização do Open de Debates, em outubro (a que a imagem se refere)

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Debates universitários: não ganha quem fala mais alto, mas quem argumenta melhor

Todas as semanas, estudantes universitários propõem-se debater temas da atualidade - feminismo, eutanásia, extremismo e até o Pai Natal - ao estilo parlamentar inglês, em salas da Faculdade de Direito, Técnico, ISCTE, ISEG entre outras faculdades de Lisboa. A treinar para entrarem na vida profissional.

"Não é uma coisa em que quem fala mais alto é ouvido. Cada um tem os seus sete minutos e ninguém interrompe, portanto a pessoa está lá e dá voz aos seus argumentos", explica ao DN Inês Nabais do Paulo sobre a missão da Sociedade de Debates Académicos de Lisboa (SDAL).

Inês, de 19 anos, e a sua colega Maria Clara Rodrigues, de 20, alunas da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde a Sociedade de Debates Académicos de Lisboa começou, querem fomentar uma sociedade mais democrática com estes debates. Debates entre universitários, mas que também já se fazem entre alunos do secundário e que até poderão vir a chegar à primária também. Acreditam que é importante desenvolver o espírito crítico desde a mais tenra idade, pois "acaba por se adquirir maior experiência e tem maiores probabilidades de adquirir bons resultados".

Mas em que consistem estes debates ao estilo parlamentar inglês? Duas equipas esgrimem argumentos sobre um tema durante sete minutos e outra avalia o debate. No final, são eles que decidem quem expôs melhor as suas ideias. As regras podem ser consultadas no site da CNADU - Conselho Nacional de Debates Universitários - que reúne todas as sociedades de debate competitivo universitário, segundo Inês Nadais do Paulo e Maria Clara Rodrigues.

Na segunda-feira, dia 16, foi o último debate antes das férias e teve fins solidários. Além de debater, e em resposta a um desafio proposto pela Associação de Estudantes, uma dezena de alunos juntaram artigos alimentares para um cabaz de natal, que chegará a uma instituição e, depois, a uma família.

A moção em análise neste debate teve como suporte o seguinte texto: "É Natal! Na neve branca, é visível o rasto do trenó do Pai Natal. Um polícia anda na rua, saboreando o espírito natalício, e de repente descobre um pequeno livrinho. É a lista do Pai Natal com uma lista completa de todas as transgressões de todas as pessoas do planeta. O polícia imediatamente reconhece o poder desta lista. Na parte de trás do livrinho, está a morada do Pai Natal."

Divulgada quinze minutos antes do debate, permite que governo e oposição discutam as suas ideias que depois têm de apresentar dentro dos sete minutos programados. Neste caso, uma equipa defenderia a destruição da lista. A oposição defenderia o contrário.

Neste debate havia uma característica fora do comum. A equipa que primeiro fez a oposição era constituída por apenas um elemento, Inês Nabais do Paulo, que rebateu o 1.º governo nas duas vezes necessárias. A equipa de adjudicação também foi constituída por apenas um elemento, Maria Clara. No entanto, esta fez uma parte da análise dos discursos, e a outra parte permitiu que a equipa pronunciasse as suas opiniões.

O primeiro governo iniciou o debate, na voz de João, com os seus sete minutos para argumentar: "Que lista é esta? O que são as transgressões?". Diz que não contém verdades inequívocas. Pergunta: Quem fez a lista? O Pai Natal. Mas terá legitimidade para ter esta lista? Outra questão é a da invasão à privacidade das pessoas na lista. E mais: Digamos que esteja correta a transgressão de uma pessoa da lista, não significa que as transgressões de todas as outras pessoas da lista estão corretas. Avança com uma possível solução: "Contratar uma entidade independente para eliminar a lista"

A primeira oposição, pela voz de Inês, parte do pressuposto de que o Pai Natal existe, e que conhece as transgressões de todas as pessoas. "Mas o que são transgressões, senão uma interpretação atualizada do pecado? E o polícia, terá capacidade de análise para decidir o que fazer com a lista?"

Volta a falar o primeiro governo. "Porquê esta diferenciação de que quem cometeu ilícitos não ganha prendas? Qual o limite de conhecimento do Pai Natal? A figura da autoridade: Pai Natal ou Polícia? E estaremos a falar de transgressões de crianças ou de transgressões de todas as pessoas do mundo? Interpõe-se então uma questão de um dos intervenientes: Não será desumano a falta de expressão de direitos humanos desta lista?", pergunta Francisco, que fez equipa com João.

Entra mais uma vez em cena Inês, voz da primeira oposição. Está a contar que o sentido ético do polícia fará com que não publique a lista. O que interessa mais: evidenciar a importância do Natal ou fazer valer a punição de crimes? Finalmente, pode questionar-se a imparcialidade da possível solução, a entrega da lista para uma instituição independente.

Entra no debate Lourenço, do segundo governo: Havendo falta de pensamento crítico na análise da lista, pode-se descair para um sistema autoritário. Na defesa de um mundo ecológico, a lista remonta para um uso indevido de um material, o papel, não devendo ser utilizado. A questão da valorização da prenda para o menino rico em detrimento do menino pobre. Poderemos estar a destruir o pensamento crítico através da obrigação de uma responsabilização?

Na segunda oposição, Marta pergunta: Terá o polícia legitimidade para destruir a lista? Facto: O polícia é uma autoridade. Dúvida: Terá credibilidade? Conseguirá mudar o status quo? E estaremos a falar de uma imposição da sociedade ocidental? Esta criminalização das transgressões trará justiça e igualdade social? Outra questão: Implicará humanidade a avaliação desta lista? Não será possível refletir sobre o erro, principalmente aqueles que cometeram o erro.

As intervenções finais fazem o resumo dos argumentos de cada equipa e ​​​​​​​no final do debate, a mesa (os elementos que avaliam o debate) decide qual foi a equipa mais persuasiva, analisando o conteúdo do discurso, e como se relaciona com o debate e argumentos das outras equipas. As equipas são classificadas pelo desempenho (entre o primeiro e o quarto lugar) e os avaliadores explicam as decisões que tomaram.

Neste caso, a equipa mais persuasiva foi a Lourenço e a sua colega de equipa, Diana. Seguiram-se Inês, Pedro e Marta e Francisco e João.

Desde 2010 a trocar ideias ao estilo parlamentar inglês

A Sociedade de Debates Académicos de Lisboa nasceu em novembro de 2010 na Faculdade de Direito de Lisboa, mas não se sabe ao certo quem foram os fundadores, contam Inês Nabais do Paulo e Maria Clara Rodrigues ao DN. Sabe-se apenas que eram na maioria estudantes de Direito.

Entretanto, alunos de outras áreas, que querem treinar as suas capacidades de argumentação, começaram a interessar-se. Estão já no ISCTE, na Faculdade de Medicina, no Técnico e pretendem criar um polo no ISCAL.

Mas em que consistem estes debates ao estilo parlamentar inglês? Duas equipas esgrimem argumentos sobre um tema durante sete minutos e outra avalia o debate. No final, são eles que decidem quem expôs melhor as suas ideias. As regras podem ser consultadas no site da CNADU - Conselho Nacional de Debates Universitários - que reúne todas as sociedades de debate competitivo universitário, segundo Inês Nadais do Paulo e Maria Clara Rodrigues.

O debate dos debates

Anualmente, o CNADU - Conselho Nacional de Debates Universitários organiza o debate TORNADU que é mais do que um debate nacional. É uma experiência de "convívio" e de "partilha", dizem Inês e Maria Clara.

Maria Clara Rodrigues conta-o na primeira pessoa. Começou a sua participação na Sociedade de Debates Académicos de Lisboa logo no TORNADU, não a debater mas como adjudicator, ou seja, juiz. Foi em Guimarães, há dois anos. Esteve quase para não ir, pois torceu o pé na véspera, mas o incentivo da equipa e a ajuda mútua fizeram-na mudar de ideias.

"Nos debates não é só importante a competição mas também o facto de estar a lidar com pessoas muito diferentes, o que acaba por nos ajudar a lidar com a diversidade. Acho engraçado ver a cumplicidade que se estabelece entre nós. É uma competitividade saudável", destaca Maria Clara.

Já Inês começou a debater ainda no secundário. Quando propuseram à sua turma um debate, levantou logo a mão para se voluntariar. Teve uma surpresa: tinha de debater a favor do doping. Pensou: como poderia defender algo tão contrário ao senso comum? Com a ajuda de um colega mais experiente, Duarte Canotilho, a equipa foi vencedora do debate.

"Uma coisa que me afetou pessoalmente foi o facto de defender coisas que às vezes são completamente contrárias àquilo que eu acredito, porque fez com que eu tivesse de olhar para a minha perspetiva e perceber o que está errado naquilo em que tu acreditas. E obrigar-me a pensar naquilo que está errado no que eu acredito obriga-me a arrumar argumentos mais fortes para suportar aquilo em que eu acredito", explica Inês Nabais do Paulo ao DN.

O TORNADU também é um passo para os debates internacionais, pois a equipa que vence o torneio nacional ganha uma bolsa que permite custear os gastos no estrangeiro - Oxford, Cambridge e países como Holanda e Marrocos, onde esteve Duarte Marçal, também da Sociedade de Debates Académicos de Lisboa e um debater experiente do grupo.

"O movimento de debate competitivo está a crescer bastante e todos os TORNADUS batem recordes em termos de números de participantes, como vai havendo cada vez mais influências vai havendo cada vez mais pessoas a entrar", afirma Inês Nabais do Paulo. E aumentou a diversidade. "Antes eram mais pessoas da área do Direito, das Ciências Políticas ou Humanísticas a participar, mas neste momento temos muitas pessoas do Técnico e daqui do ISCTE também. São áreas muito diversificadas", explica, referindo-se à universidade que concentra mais cursos de engenharia e à que está mais ligada à gestão e economia.

Depois da experiência dos debates

Depois da universidade e da passagem pelo SDAL, "algumas pessoas tornaram-se advogadas, outras emigraram, e já tivemos uma pessoa que fundou uma empresa que na altura já teve algum sucesso. É engraçado ver pessoas dos debates que tornaram-se bem sucedidas independentemente da área, por exemplo uma pessoa que agora está a trabalhar em Bruxelas. Acabamos por nos tornarmos pessoas bastante flexíveis, podemos ir para fora, ficar cá, até fazer bastante coisas diferente daquelas que tínhamos imaginado", diz Maria Clara Rodrigues. Dá os exemplos de antigas participantes. Uma ajudou a desenvolver o projeto da ONU HeforShe, outra iniciou o projeto Women for Women.

Salientam a importância da cultura geral nestes debates, mas lembram o que aconteceu quando se falou sobre a Segunda Guerra Mundial. "Muitas pessoas tinham conhecimento sobre o tema mas não sabiam expor os argumentos. Muitas vezes, vale mais ter boa argumentação do que conhecimento sobre o assunto, embora ambos sejam complementares", diz Inês Nabais do Paulo. Nesse sentido, a Sociedade de Debates Académicos de Lisboa promove formações como a Autumn Academy, para que se obtenha conhecimentos mais específicos sobre determinados temas.

"A ideia é deixar nas pessoas uma paixão tal que queiram pegar nisto, queiram ter o trabalho de organizar debates, organizar torneios. Se fomentarmos paixão suficiente nas pessoas temos a missão cumprida", conclui Inês. A SDAL tem já protocolos com a câmara municipal de Lisboa e o Governo para dar formação de debates e organizar torneios para crianças.

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