Contaminação por glifosato está espalhada por todo o País

Estudo da Plataforma Transgénicos Fora mostrou que todos os voluntários portugueses testados em outubro passado estavam contaminados pelo pesticida potencialmente cancerígeno.

A iniciativa levada a cabo pela Plataforma Transgénicos Fora para testar a presença de glifosato em voluntários portugueses demonstra uma exposição recorrente ao herbicida e aponta para uma contaminação generalizada em Portugal, uma vez que as amostras foram recolhidas aleatoriamente entre a população geral.

As análises, realizadas em julho e em outubro com o mesmo grupo, mostram uma diferença preocupante quando comparadas com outros países europeus: enquanto que na média de 18 países se verifica que 50% das amostras estão contaminadas, as duas rondas de testes em Portugal estavam acima desse valor - e em outubro a contaminação foi detetada em 100% das amostras, revela a Plataforma Transgénicos Fora.

O efeito tóxico deste herbicida divide opiniões, mas em 2015 o glifosato foi classificado pela Organização Mundial de Saúde como "carcinogéneo provável para o ser humano" e o seu uso, em testes, provocou cancro em animais de laboratório. Em Portugal, onde é o herbicida mais usado - serve para matar ervas daninhas e infestantes - a lei proíbe a sua utilização em espaços públicos, mas não impede totalmente a sua aplicação.

Os testes realizados em Portugal pela Plataforma Transgénicos Fora, em 2018, levaram à recolha de amostras de 62 voluntários, em julho, repetindo-se a análise a 44 desses voluntários, em outubro. Os voluntários foram escolhidos aleatoriamente, não se limitando à população habitualmente exposta ao herbicida. Os resultados revelaram a presença de glifosato na urina de 65% das pessoas submetidas aos testes de julho, enquanto três meses depois a contaminação era mesmo total. Números que se situam bem acima da média europeia.

"O valor médio da contaminação das amostras foi de 0,35 ng/ml em julho (valor mais alto: 1.39 ng/ml) e de 0,31 ng/ml em outubro (valor mais alto: 1,20 ng/ml), o que é cerca de três vezes (300%) acima do limite legal na água de consumo", revela o estudo, disponível no site da Plataforma.

Na sequência deste estudo, os responsáveis pela Plataforma Transgénicos Fora fazem um apelo ao Governo para que proíba a venda de herbicidas à base de glifosato e lance um estudo abrangente sobre a exposição dos portugueses. A Plataforma quer análise obrigatórias para detetar glifosato na água de consumo e o fim do uso de herbicidas sintéticos na limpeza urbana. Na nota, a entidade pede ainda ao Governo apoio aos agricultores na transição para uma agricultura pós-glifosato nos próximos anos.

Recorde-se que em 2017 a Comissão Europeia renovou a licença para o uso de glifosato por um prazo de cinco anos, numa votação na qual Portugal se absteve. Mas um relatório recente encomendado por deputados europeus denunciou que as conclusões da avaliação de riscos que permitiram a renovação da autorização do uso de glifosato na União Europeia foram quase totalmente copiadas de informações prestadas pela própria indústria que comercializa o produto.

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