Bebé sem rosto. "Já no primeiro trimestre avaliamos a presença de ossos no nariz"

Presidente do colégio de ginecologia e obstetrícia da Ordem dos Médicos, João Bernardes, já detetou várias anomalias em fetos ao longo da sua carreira, mas indica que nestes casos a primeira ou a segunda ecografia lançam logo o alerta. No entanto, lembra que " falhar a detenção de anomalias não é assim tão raro".

Um bebé nasceu, na semana passada, sem olhos, nariz e parte do crânio. O parto aconteceu no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, mas a mãe foi acompanhada numa clínica privada na mesma cidade por um médico - alvo de pelo menos oito queixas na área - que terá negado qualquer malformação do feto.

A grávida realizou as três ecografias obrigatórias e num caso como este, no máximo, durante o exame do segundo semestre a anomalia deveria ter sido detetada. O obstetra e presidente do colégio de ginecologia e obstetrícia da Ordem dos Médicos, João Bernardes, indica que, durante a segunda ecografia, é obrigatório confirmar que dedos, nariz e olhos estão presentes. E quando não são visíveis, há que fazer mais testes e informar a família.

A partir de que ecografia é possível detetar uma má formação no rosto?
Nós, em Portugal, temos um modelo de rastreio das malformações fetais e de acordo com essas normas temos de começar a realizar uma ecografia a todas as grávidas entre a semana 10 e a 13. Nesta ecografia de primeiro trimestre, já é possível visualizar algumas malformações maiores, incluindo no crânio e na face. Têm é de ser situações expressivas. Mas a ecografia por excelência para o rastreio e detenção de malformações é a ecografia das 20 a 22 semanas, também conhecida como morfológica, e que permite uma visualização muito detalhada do feto.

E depois há uma terceira, entre a semana 30 e 32, que se destina sobretudo a avaliar o crescimento do bebé, a ver como é que está o liquido amniótico. Mas também serve para detetar anomalias morfológicas que ainda não tenham sido detetadas nas anteriores e algumas anomalias raras.

Já é possível na segunda ecografia contar os dedos, ver o nariz, os olhos?
Sim, sim. Já no primeiro trimestre avaliamos a presença de ossos no nariz. Na [ecografia] do segundo trimestre, temos mesmo de fazer uma validação morfológica muito pormenorizada do feto e temos de seguir a norma da Direção-Geral de Saúde, que tem uma check list, onde temos de dizer: "vi, não vi, necessita de esclarecimento".

E quanto tempo demora em média a fazer essa ecografia?
Normalmente, apontamos para 20 ou 30 minutos, se for uma situação que não nos levante nenhum problema específico.

E quando deteta na ecografia que algo não está bem, o que faz?
Pedimos exames complementares, uma amniocentese, um exame de imagem, por exemplo, uma ressonância magnética. Ou então, podemos tomar logo uma decisão, porque é uma situação que não deixa qualquer duvida, e nesse caso discuti-la com a família e com outros colegas, neonatologistas, pediatras, cardiologistas pediátricos. Depois, em cada hospital, há uma comissão técnica de diagnóstico parental e há uma decisão multidisciplinar.

Isso já lhe aconteceu?
Sim, já tive de debater esse tipo de assuntos. No inicio da minha carreira, que já tem quase 40 anos, tive algumas situações desse tipo e hoje como diretor de serviço [no Hospital de São João] e também no Colégio de Especialidade da Ordem aparecem-nos situações desse tipo para apreciarmos.

Falhar a avaliação do rosto de um bebé é algo que pode acontecer?
Não é normal. Uma situação extrema é raríssimo acontecer. Mas falhar a detenção de anomalias não é tão raro e as estatísticas, a nível mundial, apontam valores na ordem dos 20% para a possibilidade de falhar - o que é substancial. As malformações cardíacas são mais difíceis de detetar, por exemplo. O processo não é infalível, mas em Portugal temos níveis excelentes de cuidados materno-fetais. Há países desenvolvidos onde as ecografias não são feitas por médicos, como acontece em Portugal, são feitas por técnicos.

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