Bebé sem rosto. Ordem dos Médicos abre inquérito com "urgência" a obstetra

Queixa ainda não chegou à Ordem dos Médicos, mas bastonário garante que o organismo vai atuar já. Conselho Disciplinar é que tem de decidir se suspende o médico.

Em conferência de imprensa esta tarde, o Bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, e o vice presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos, Jorge Penedo, enviaram uma mensagem de solidariedade para a família "que está a passar um momento difícil," palavras do bastonário que vai solicitar "com urgência" a abertura de um processo disciplinar ao obstetra Artur Carvalho, médico assistente graduado sénior, que, alegadamente, não detetou malformações graves no bebé que nasceu sem rosto a 7 de outubro no Hospital de Setúbal.

A Ordem dos Médicos disse ao DN que há pelo menos oito queixas contra este profissional, e anunciou que vai requerer ainda ao Conselho Superior - que tutela sobre o trabalho dos conselhos disciplinares - uma reunião de urgência. Hoje confirmou existirem cinco queixas à Ordem (esta será a sexta e será realizada pelo próprio bastonário, uma vez que a família ainda não o fez) - a primeira data de 2013, as seguintes foram em 2014, 2015, 2017 e 2019 ​​​​.

Estão todas relacionadas com atos médicos de Artur Carvalho, mas Miguel Guimarães desconhece os casos. "Não tenho acesso aos processos disciplinares", explicou. Os outros dois processos já foram arquivados e esta é a segunda queixa este ano.

Miguel Guimarães disse também ter conversado com a ministra da Saúde, Marta Temido, que terá confirmado que irá pedir satisfações sobre esta e outras queixas contra Artur Carvalho.

Quanto ao Conselho Disciplinar do Sul quer que este ouça "com urgência" o obstetra e que decida se vai suspender o médico ou não, "dada a gravidade da situação, que é pública". Questionado, Miguel Guimarães disse desconhecer se o obstetra continua a trabalhar. E esclareceu que a decisão de suspender o médico não é da Ordem dos Médicos, mas do conselho.

"Se a atuação deste médico pode estar a colocar em causa a saúde das pessoas, que decida sobre a suspensão preventiva", disse o bastonário.

Miguel Guimarães disse compreender que uma mãe "se sinta desconfortável" em ser seguida por Artur Carvalho e que procure outro médico após virem a público a existência desta e de outras queixas. Também admitiu não ter conversado - nem informalmente - com o obstetra, e que também não o pretende fazer.

Na quinta-feira, o Centro Hospitalar de Setúbal já tinha esclarecido que o acompanhamento da gravidez da mulher que deu à luz um menino com várias malformações, sem olhos, nariz e parte do crânio, no Hospital São Bernardo, em Setúbal, não tinha sido feito naquela unidade hospitalar, onde se realizou apenas o parto.

Ao fim da tarde de quinta-feira, Miguel Guimarães já tinha exarado um comunicado, no qual frisava não poder "interferir na atividade do Conselho Disciplinar do Sul, que estatutariamente tem autonomia no seu funcionamento e nos membros para ele designados", mas certificando que, "perante a gravidade dos factos relatados", tinha interpelado o seu presidente (o obstetra Alexandre Valentim-Lourenço, que não se encontra no país) "pedindo um esclarecimento cabal perante os vários processos que tem em análise". E concluía pedindo pressa: "Reitero o forte apelo que já tenho feito noutros momentos ao Conselho Disciplinar do Sul, no sentido de podermos contar com uma ação rápida, eficaz e justa nos casos analisados, que dignifique a profissão médica e que proteja os doentes."

Hospital de Setúbal também abriu inquérito

O Centro Hospitalar de Setúbal abriu um inquérito sobre o parto da criança que nasceu este mês, neste mesmo estabelecimento de saúde, sem rosto. Já o Ministério da Saúde anunciou que irá pedir à Ordem dos Médicos esclarecimentos sobre os processos que envolvem o médico obstetra que não detetou malformações graves neste bebé.

"Atendendo à reclamação apresentada por parte da família, o Centro Hospitalar de Setúbal deliberou proceder à abertura de um processo de inquérito, para apurar se tudo foi feito de acordo com a legisartis desde que a parturiente deu entrada no bloco de partos", refere um comunicado o Centro Hospitalar de Setúbal, que integra o Hospital São Bernardo. "Mais se informa que o clínico em questão, nas tarefas que lhe estão atribuídas no Centro Hospitalar de Setúbal, não estão incluídas a realização de ecografias obstétricas, nem desempenha qualquer cargo ou função de chefia no Hospital de São Bernardo", acrescenta o comunicado.

.De acordo com o CHS, "a criança e a família têm sido acompanhados no Serviço de Pediatria com o apoio da Equipa Intra-Hospitalar de Suporte em Cuidados Paliativos Pediátricos do Centro Hospitalar de Setúbal".

Outras fontes hospitalares disseram à agência Lusa que o obstetra Artur Carvalho, médico assistente graduado sénior, que, alegadamente, não detetou malformações graves no bebé, terá acompanhado a gravidez da mãe da criança a título particular, numa clínica privada muito próxima do hospital, e que não terás detetado as referidas malformações nas ecografias realizadas.

A madrinha do bebé confirmou à agência Lusa que os pais apresentaram queixa contra o médico que acompanhou a gravidez, no Ministério Publico de Setúbal, na sexta-feira da semana passada, e já está a ser investigado.

O bebé em causa nasceu dia 7 de outubro no Hospital de São Bernardo sem olhos, nariz e parte do crânio, depois de a mãe ter realizado ecografias com um obstetra numa clínica privada em Setúbal com o médico Artur Carvalho. Os pais do bebé terão feito três ecografias com o médico em causa, sem que lhes tivesse sido reportada qualquer malformação.

Só num exame feito noutra clínica, uma ecografia 5D, os pais foram avisados para a possibilidade de haver malformações. Questionaram o médico que os seguia, que lhes garantiu que estava tudo bem, conta o jornal, citando a madrinha do bebé.

Exclusivos