Aldeia agita-se contra batida à raposa. Caçadores falam em "perseguição"

Uma petição com mais de 3800 assinaturas pede a abolição da batida à raposa e saca-rabos, prevista para a Quiaios este domingo. Há também uma manifestação agendada. Caçadores dizem-se "perseguidos".

A batida à raposa e saca-rabos - agendada para este domingo, 23 de fevereiro - na zona de Quiaios, está a agitar os dias da pacata freguesia da Figueira da Foz. Ao final da tarde desta sexta-feira, uma petição on-line reunia já mais de 3800 assinaturas, na esperança de ver cancelado o evento que ali se realiza há décadas. Paralelamente, uma página no facebook intitulada "Maré - Plataforma Virtual 3.0 de Moradores da Freguesia de Quiaios", convocava uma manifestação contra o abate de raposas naquela região costeira.

Aparentemente, ambas as iniciativas não têm qualquer ligação. "Eu só gosto de animais e não quero que isto aconteça, por isso iniciei a petição" disse ao DN Anabela Santos, professora (formada em Biologia), residente na praia da Murtinheira, uma localidade da freguesia de Quiaios. De resto, apesar de ser organizada pelo Clube de Caçadores da sede de freguesia, a batida à raposa tem concentração marcada para a Associação Desportiva da Murtinheira, que porém se demarca completamente da organização.

Anabela Santos conta ao DN que tomou conhecimento desta primeira batida de 2020 há algumas semanas, através dos populares da Murtinheira. "É usual aparecerem duas raposas na praia, uma delas tem mesmo a alcunha de "castanhinha", e as pessoas afeiçoaram-se a elas. Como felizmente as mentalidades estão a mudar, aquilo que antigamente se aceitava como natural deixou de o ser. É por essa razão que desta vez temos esta contestação", conclui. No texto que acompanha a petição, Anabela considera que "a caça à raposa e saca-rabos é uma prática hedionda de crueldade animal, mascarada pelas palavras 'desporto', 'tradição', 'conservação' e 'controlo populacional'". "O problema é que as alterações climáticas e os incêndios vieram trazer uma nova realidade, também ao nível das espécies", acrescenta, acreditando que "as populações de raposas e saca-rabos diminuíram consideravelmente" nos últimos anos.

Mas não é essa a opinião de Rui Mamede, presidente do Clube de Caçadores de Quiaios, que assegura ao DN existirem "imensas raposas em toda a extensão que vai desde a Figueira da Foz ao Bom Sucesso". "Ainda há poucos dias um morador de Quiaios relatou que uma (ou mais) raposa lhe matou 52 galinhas e mais de 20 patos. Isto é um prejuízo que vem parar às mãos dos clubes de caçadores", sublinha o caçador, que diz não entender toda a celeuma gerada em torno da batida.

O Clube de Caçadores de Quiaios organiza quatro ou cinco eventos similares por ano, devidamente autorizados pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Rui Mamede insiste que "as batidas são necessárias" e que "nunca se mata indiscriminadamente". Além disso, lembra que muitas estarão "infetadas por sarna" e alude a uma questão de salubridade.

Anabela Santos chegou a reunir com o Clube de Caçadores no intuito de os demover desta intenção da batida, mas sem sucesso. Entretanto, o caso ganhou espaço mediático esta semana, quando a página Maré (cujos autores não se identificam) convocou uma manifestação para domingo, à mesma hora em que está prevista a concentração de caçadores. Chamam-lhe "S.O.S. Raposa", está marcada para o Largo do Mercado de Quiaios às 7.30 de domingo, e consta de uma campanha de sensibilização, seguida de uma outra ação mais prática: "quem quiser afastar as raposas e colocá-las em alerta antes de começar a batida, segue para a zona de caça". O DN tentou contactar os administradores da página mas até ao momento não obteve qualquer resposta.

Políticas, provocações e ameaças

Entretanto, caçadores e contestatários vão medindo forças e trocando acusações. Rui Mamede fala no envolvimento de "forças políticas, como o BE e o PAN" e garante ter recebido várias ameaças, "até de morte", por parte de anónimos.

A batida de Quiaios chegou também às páginas da Federação de Caça e Pesca da Beira Litoral (que repudia "todos estes tipos de extremismo e apela aos caçadores para serem superiores a estas provocações"); e também do Movimento pela Abolição da Caça à Raposa. O paleontólogo Octávio Mendes é um dos membros daquele movimento inorgânico, que esteve na base de uma petição com mais de 21 mil assinaturas - e que na legislatura passada chegou para discutir na Assembleia da República o fim da caça à raposa, chumbado, afinal. Vencido, mas não convencido, o Movimento insiste na sensibilização: "Nós acreditamos que a caça, em si, tem de ser repensada. Não faz sentido continuarmos a caçar como há 50 anos - e a batida à raposa é disso um exemplo -, a matarmos milhões de animais por ano quando sabemos que as alterações climáticas já se encarregaram de os reduzir drasticamente".

Anabela Santos aponta como exemplo o saca-rabos (um dos mamíferos de distribuição mais invulgar na Europa, estando restrito ao sudoeste da Península Ibérica) e a raposa-vermelha (um dos canídeos selvagens do país). "A caça desestabiliza o seu desenvolvimento natural, tendo em conta que são alvos preferenciais dos praticantes desta atividade de entretenimento, animais de grande porte, saudáveis e mais fortes. De acordo com a Ciência, seriam estes animais que dariam continuidade à espécie. São ainda deixadas órfãs e em risco de vida centenas de crias, que acabam por morrer - não sendo por ferimentos - por falta de acompanhamento dos progenitores. A diminuição da população destes animais coloca ainda em risco todo o ecossistema local: aumentarão as populações de outras espécies, tão ou mais perigosas para o ser humano e, por exemplo, para a indústria agropecuária", pode ler-se na petição.

A mentora sublinha também que a "acessibilidade e "simpatia" da raposa-vermelha é um dos motores do turismo em Quiaios". Por tudo isso, os subscritores da petição apelam à Câmara Municipal da Figueira da Foz, à Junta de Freguesia de Quiaios e à Associação de Desenvolvimento da Murtinheira, "o cancelamento deste evento bárbaro". Até ao momento nenhuma das entidades acedeu cancelar a batida.

Advogado apresenta queixa-crime

Durante esta semana, um advogado ligado às causas do mundo rural apresentou em tribunal uma queixa por um alegado crime de perseguição aos caçadores. Segundo a notícia da Agência Lusa, a queixa do advogado André Grácio foi endereçada ao procurador do Ministério Público do tribunal judicial da Figueira da Foz, pedindo "que as autoridades identifiquem "com urgência" o autor e administrador da página "Maré Virtual 3.0 de Moradores da Freguesia de Quiaios", por alegada prática do crime de perseguição.

"Este desconhecido, escondido atrás de uma página de rede social, convida a ir, no dia 23 de fevereiro, com o uso de buzinas, estragar uma batida às raposas e chega até a pedir informação sobre os pormenores da batida para poder lograr tal intento", adianta André Grácio, citado pela Lusa.

André Grácio avisa que estarão presentes na batida à raposa "várias pessoas com licença de uso e porte de arma" (caçadores), mas, "pelos vistos, haverá quem aparecerá apenas com o intuito de os provocar".

O que acontece na batida

De acordo com o artigo 202 da lei que regulamenta a caça à raposa e aos saca-rabos esta pode ser exercida de salto, à espera e de batida, "podendo ainda a raposa ser caçada a corricão e, em terrenos ordenados, no decurso de montarias". Rui Mamede explicou ao DN que, numa batida "são utilizados os cães para afugentar as raposas, bem como batedores, que as colocam na linha de caçadores". Na batida de domingo são esperados cerca de 50 caçadores em Quiaios.

A lei estabelece ainda que "é permitida a utilização de chamariz na caça à raposa", permitida nos meses de outubro a fevereiro, inclusive, sem prejuízo de acontecer em terrenos cinegéticos não ordenados, embora a caça de salto só seja permitida nos meses de outubro a dezembro, inclusive. Já a caça de batida e a corricão só pode ser permitida nos meses de janeiro e fevereiro e apenas nos locais e nas condições estabelecidos em edital do ICNF.

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