Uma mão cheia de nada

O último fim de semana trouxe mais um congresso do PPD/PSD. Os sociais democratas juntaram-se outra vez, desta feita para a consagração de um novo líder: Luís Montenegro.

A eleição deu-se após um dos períodos mais complexos para o partido laranja, onde as lutas e desentendimentos internos foram a nota dominante. Depois de Jorge Moreira da Silva ser preterido face a Montenegro, aparentemente o PSD encontrou o seu o novo timoneiro.

As expectativas para este evento eram elevadas. Trata-se do maior partido da oposição e este congresso deveria ter proporcionado o seu (re)nascimento. Só com uma reinvenção o PSD poderia passar a exercer a sua função de forma sólida e coerente, contribuindo para o saudável equilíbrio do sistema democrático, especialmente quando se vive em maioria absoluta.

Contudo, o que se viu no Palácio de Cristal teve pouco ou nada de inovador. Foi uma espécie de regresso saudosista aos tempos do "Passismo". Prevaleceram as dificuldades no encontro de mulheres (a fatia maior da população) para ocupar cargos dirigentes e, de grosso modo, a "renovação" deu-se com o regresso de apoiantes de Pedro Passos Coelho.

O PSD consegue, assim, recuar a um tempo que vai para além da austeridade. Essa particularidade percebeu-se ao longo do congresso, patente no contraste entre as intervenções do novo líder e as do Primeiro-Ministro. O último sugere diálogo e procura de consensos, Montenegro revelou preferir criticá-lo gratuitamente, mesmo não sendo o maior conhecedor dos dossiers na oposição.

Por outro lado, assumir a existência fantasmas, mesmo que esses personifiquem uma espécie de verdade interna agradável, significa aceitar a possibilidade de ser assombrado. Foi o que aconteceu a Montenegro. Tem a casa assombrada. Muito assombrada.

Não bastando Passos e a falta de vontade (por desconhecimento ou, em alternativa, apenas falta dela) em alcançar consensos com Costa, Montenegro tem ainda quem ande no terreno 24h sob 24h em permanente campanha de rua e de comunicação, com o alto patrocínio do único e grande comentador nacional.

Algo de semelhante se viu em Carlos Moedas: já tinha dito antes do congresso que não sabia onde estaria em 2025, abrindo assim a porta de São Bento. Também fez a ronda pelos jornalistas e quando discursou o Palácio de Cristal levantou-se em peso. Como se não bastasse, Moedas deu-se ainda ao luxo de trazer novidades a Montenegro e ao Congresso, portanto, tiques normais de um líder.

O "povo laranja" gostou e gratificou o edil com uma forte ovação. Moedas, para disfarçar, lá foi dizendo que apoiava Montenegro.

Em suma, deste congresso da direita retiram-se três aspetos essenciais: o primeiro é que o novo líder aceita partidos racistas e xenófobos, desde que não pratiquem e defendam essas políticas, e não acede ao repto de Costa para debater os grandes projetos do país, como a regionalização, a descentralização ou mesmo o aeroporto.

O segundo aspeto prende-se com a possibilidade de estar na calha um hipotético sucessor de Montenegro. Um "levanta congressos", alguém que ganhou eleições para o PSD e que, deixando Lisboa em standby, conseguirá granjear os apoios necessários de Belém para se lançar a São Bento.

O terceiro e último ponto consubstancia-se nas sombras e fantasmas do passado, tão desejados por Montenegro, que podem mesmo vir a ser o seu maior pesadelo, especialmente quando o forçarem a capitular.

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