Um milhão de óbitos por covid-19 nos Estados Unidos da América

"O nosso dia-a-dia depende do que fazemos,
mas fazemos uma vida
com aquilo que damos"
(Winston Churchill, 1874 - 1965)

Constatou o Coronavirus Resource Center da prestigiada Universidade de Medicina Johns Hopkins, que no passado mês de Maio haviam falecido, nos Estados Unidos da América (EUA), país que conta com um total de 330 milhões de habitantes (isto é, aproximadamente 4% da população mundial), mais de um milhão de pessoas por covid-19. Um milhão de óbitos imputáveis à pandemia, um milhão de pessoas que perderam e, assim, deram a vida às mãos de uma doença que era inexistente antes de 2020.

Um número impressionante se atendermos ao facto de que se encontram contabilizados pouco mais de 6 milhões de óbitos a nível global, o que significa que cerca de um sexto (17%) da mortalidade registada neste contexto ocorreu na maior potência mundial em termos económicos e militares.

Um número horrendo, se lembrarmos que teve lugar em sensivelmente 800 dias de pandemia, equivalendo a uma média diária de 1250 óbitos e a um falecido por cada 330 habitantes nos EUA. Imaginemos que nos EUA caíram todos os dias três aviões Boeing 747 (Jumbo) com 418 passageiros, sem sobreviventes...

Um número de óbitos que ultrapassa a soma dos óbitos das tropas americanas nas I e II Guerras Mundiais e se aproxima do total de óbitos ocorridos em todos os conflitos em que os EUA participaram desde o início da Guerra da Independência contra os ingleses em 1775 e até 1991.

Um número trágico e impensável, que demonstra cabalmente o risco de se desvalorizar a pandemia. Só por ignorância, ilusão do conhecimento ou má-fé se pode negar a verdadeira dimensão deste flagelo e continuar a confundi-lo com doenças de outro porte.

Dados que reforçam a subestimação dos números da pandemia. O registo de um milhão de óbitos imputáveis à pandemia verificado nos EUA (país em que a confirmação por métodos de diagnóstico molecular é corriqueira) aponta, a nível global, para valores 3 a 4 vezes superiores, ou seja, para um número de óbitos a rondar os 20 milhões (e não 6 milhões) no plano internacional, uma vez que nem sempre se encontra disponível, pelo mundo fora, a confirmação por métodos moleculares.

Nestes dois últimos anos a covid-19 passou a ser a terceira causa de morte nos EUA, atrás apenas das doenças cardiovasculares e da totalidade das doenças neoplásicas, tendo sido responsável por 3 vezes mais mortes do que as imputáveis à gripe na última década no seu todo, segundo a revista Forbes que, por sua vez, cita o CDC (Centers for Disease Control and Prevention). Comparada com a mortalidade pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH), o vírus SARS-CoV-2 foi mais letal do que as últimas 4 décadas de Síndroma de Imunodeficiência Adquirida (SIDA) nos EUA.

Embora a mortalidade seja muito menor nas crianças, o impacto neste grupo etário também foi significativo. Estima-se que 200 000 crianças tenham ficado órfãs de um ou dos 2 pais e que mais de 50 000 tenham perdido um cuidador secundário (por exemplo, um dos avós).

A covid-19 condicionou mortes em todos os grupos etários. Perto de 75% dos óbitos ocorreram em pessoas com idade igual ou superior a 65 anos, 20% em pessoas entre os 45 e os 64 anos e 4% em pessoas com menos de 45 anos. Morreram mais homens do que mulheres (com 55% das mortes incorridas pelo género masculino) e à semelhança do sucedido em muitos outros países (como, por exemplo, Portugal) o mês mais mortífero foi Janeiro de 2021. Embora a mortalidade seja muito menor nas crianças, o impacto neste grupo etário também foi significativo. Estima-se que 200 000 crianças tenham ficado órfãs de um ou dos 2 pais e que mais de 50 000 tenham perdido um cuidador secundário (por exemplo, um dos avós).

A pandemia agravou as desigualdades e a morte por covid-19 foi desigual. Além dos mais idosos, morreram mais negros, hispânicos e indígenas do que caucasianos. O estado do Mississippi, no sudeste americano e com uma população à volta de 3 milhões de habitantes, dos quais cerca de 37% são afro-americanos (o triplo da média nacional) foi aquele com a mais elevada taxa de mortalidade nos EUA, superior a 400 óbitos por 100 000 habitantes.

As consequências da politização do conhecimento também se fizeram sentir na mortalidade por covid-19. Dos 10 estados americanos com mortalidade mais elevada, 8 são governados predominantemente pelo Partido Republicano e dos 10 estados com mortalidade menos elevada, 7 são governados maioritariamente pelo Partido Democrata.

Estas diferenças podem ser parcialmente explicadas pela aceitação e adesão às medidas de controlo e prevenção da pandemia e, sobretudo, pelas taxas de cobertura vacinal - dada a maior mortalidade nos estados americanos com piores coberturas vacinais. Estimativas da Universidade de Brown em colaboração com a Microsoft indicam que cerca de 319 000 vidas poderiam ter sido salvas nos EUA se todos os adultos elegíveis tivessem sido vacinados à medida que as vacinas foram sendo disponibilizadas.

Na sequência da mortalidade por covid-19 nos EUA, a esperança média de vida baixou, em 2020, para 77 anos, uma diminuição de quase 2 anos, e continuou a diminuir em 2021, redução esta que se estima em mais 0,4 anos. Trata-se do declínio mais rápido na esperança média de vida desde a II Guerra Mundial.

Finalmente e sob uma óptica europeia, há outros factores que devem ser tidos em consideração na análise à mortalidade nos EUA, nomeadamente, a inexistência de um Serviço Nacional de Saúde (SNS). Uma resposta em saúde universal, de elevada diferenciação, tendencialmente gratuita e comum à generalidade dos países europeus e, em particular, da União Europeia, explica certamente muitas das diferenças observadas em sede de mortalidade nos dois lados do Atlântico.

Que a mortalidade decorrente da pandemia verificada até ora nos EUA sirva, pois, de inspiração e de motivação para a valorização do nosso SNS e dos nossos profissionais de saúde, para a compreensão abrangente do seu significado e impacto na protecção contra futuras ameaças e na recuperação e desenvolvimento dos portugueses e de Portugal.

Como bem ensinou Sócrates, célebre filósofo ateniense da Grécia Antiga: "a saúde não é tudo, mas tudo é nada sem saúde".

Filipe Froes é Pneumologista, Consultor da DGS, Ex-Coordenador do Gabinete de Crise para a COVID-19 da Ordem dos Médicos e Membro do Conselho Nacional de Saúde Pública

Patricia Akester é fundadora de GPI/IPO, Gabinete de Jurisconsultoria e Associate de CIPIL, University of Cambridge

Os autores não escrevem de acordo com o novo acordo ortográfico.

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