Plano B?

Ninguém me tira da cabeça que podemos estar todos enganados. Anos e anos de especulação em torno do putativo destino europeu de António Costa. Inícios de uma legislatura em maioria absoluta inaugurados com avisos do Presidente sobre essa possível fuga, daqui em dois anos. Garantias do gabinete do primeiro-ministro de que o mandato é para cumprir e que as aspirações estão devidamente hibernadas, até tempo indefinido. Entrámos, afinal, em 2022 a falar de 2024 e chegaremos a 2024 falando eventualmente de 2026 - sem esquecer, obviamente, que as maleitas nacionais se devem à troika e a Passos Coelho, eleito há mais de uma década.

Falando a sério, não há dúvida de que António Costa tem um gosto pela política europeia que a paisagem doméstica já não lhe proporciona. Não há dúvida das credenciais que acumulou junto dos seus homólogos. E ainda menos dúvidas acerca da sua longevidade enquanto chefe de governo (excecional na União Europeia) e da sua maioria absoluta (excecional no seu espaço político e, como sabemos, não só). Costa tem peso e voz na Europa, muito para lá da família socialista e do alinhamento franco-alemão. Orbán, para o primeiro-ministro português, é "o Viktor". E certamente não por simpatia ideológica.

Tudo isso é verdade, tudo isso é relevante e tudo isso poderá ser suficiente para um homem português voltar a presidir à Comissão Europeia tão pouco tempo depois de José Manuel Durão Barroso.

A questão que este texto coloca é: e se não for?

E se Costa, como aconteceu quando apoiou Timmermans, em 2019, ou quando não apoiou o estatuto de candidato da Ucrânia, há uma semana, chegar a 2024 isolado nas suas próprias ambições? E se Espanha e o senhor Sánchez tornarem a dar o dito por não dito e ultrapassarem Portugal em novo acordo de cavalheiros com Paris e Berlim?

A posição mais realista do primeiro-ministro português em relação à adesão apressada da Ucrânia é a posição correta, sensata e defensora do interesse nacional. Um primeiro-ministro do PSD não faria diferente. E também é, coincidentemente, a posição que mais protege o futuro europeu de António Costa na hipótese - bem real - de a Ucrânia do pós-guerra não ser a cheirosa flor que Scholz, Macron e Draghi passaram subitamente a usar na lapela. Quem seria, nesse cenário, entre os líderes europeus mais integracionistas, o único que não caiu no excesso de proximidade a Zelensky? António Costa.

Mas insistindo que tudo isso - e tudo isso seria bastante - pode não chegar para a merecidíssima exportação do dr. Costa, deixemos a questão no ar: a partir de junho de 2025, um ano depois das cadeiras europeias rodarem ou não rodarem, Marcelo Rebelo de Sousa deixa de poder dissolver a Assembleia da República por estar a seis meses de abandonar a presidência; Costa, não tendo conseguido Europa, pode demitir-se à vontade, indicar o sucessor que entender, candidatar-se a Belém sem a menor hipótese de perder e condicionar toda a disposição eleitoral a dez meses das próximas legislativas, em outubro desse ano.

Com isto, resolveria quatro problemas: a sua saída do governo, onde manifestamente já fez o que tinha para fazer; a vida interna do seu partido, que necessariamente não lhe é indiferente; a chefia do Estado, que está entregue à direita desde 2006; e a continuidade do Partido Socialista em São Bento, favorecido pela sua vitória presidencial como ex-líder que todos ainda olharão como líder.

Para plano B, não estaria nada mal.

Colunista

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