Convenhamos, a Natureza já está tramada. A questão é se é possível nós termos futuro

Relatório das Nações Unidas alerta que a Humanidade voltou a falhar todas as metas ambientais do acordo de 2010 que pretendia proteger as espécies naturais e os ecossistemas. Mas nem tudo está perdido: já viram o novo iPad?!

Eram 20 os objetivos assinados sob a égide da ONU na cidade japonesa de Aichi em 2010 com vista a proteger a biodiversidade e a vida selvagem. Nem um foi atingido.

Na década anterior acontecera exatamente o mesmo.

Ah, mas agora temos mais em que pensar. Estamos a tentar sobreviver ao malvado do vírus que nos obriga a andar prài de máscara para todo o lado -- aumentando a poluição de plásticos outra vez, como já vieram alertar os cientistas.

A questão é precisamente esta. Entre a sua sobrevivência e a do ambiente que o rodeia, o ser humano fará sempre a escolha egoísta. E quanto mais as suas necessidades básicas estão satisfeitas, maiores os seus consumos para o seu conforto -- que na realidade se transformam em "novas necessidades básicas".

É assim desde que há humanidade. A única forma que as sociedades -- leia-se o poder -- tiveram de evitar que os recursos locais se esgotassem foi mantendo parte da população na pobreza ou, simplesmente, na escravidão.

Aconteceu na Antiguidade -- o motor a vapor é descrito por Vitrúvio, em Alexandria, e por Heron, na Grécia, na viragem para a Era atual, mas não se encontrou utilidade prática na coisa, não tendo passado de um brinquedo usado para entreter nas festas. Afinal, se se aplicasse a invenção para, por exemplo, fazer trabalho, o que se faria depois de todos os escravos?!

O que a história demonstra -- e convém ter memória do que foi mostrado ao mundo depois da queda da "cortina de ferro", com a experiência da economia dirigida do leste europeu que manteve a maioria da população em níveis de pobreza (a União Soviética foi o único país da Europa cuja esperança média de vida diminuiu durante o século XX) e uma indústria altamente poluente -- é que apesar de todos os seus custos ambientais, a economia de consumo "ocidental" é a única que tem permitido, nos últimos dois séculos, elevar o nível de vida de milhões de pessoas.

A esperança média de vida nos países desenvolvidos é o mais alto de sempre -- e tende a subir -- muito por causa dos desenvolvimentos da medicina, mas também devido ao facto de as pessoas viverem, simplesmente, com mais conforto.

Por coincidência. No mesmo dia em que a ONU diz que estamos a matar os ecossistemas, a Apple apresentou os seus novos gadgets.

Escusado será dizer qual das duas notícias atraiu mais a atenção dos leitores.

Sendo que, aposto "dobrado contra singelo", muitos dos que foram a correr ver o novo iPad e Apple Watch dizem-se todos os dias extremamente preocupados com o planeta. Mas também aposto que não querem verdadeiramente saber qual o custo ambiental da política de renovação de hardware da Apple e das outras tecnológicas.

(Sejamos justos. A Apple tem de facto uma estratégia de reciclagem dos seus aparelhos que, tanto quanto se sabe, funciona. No entanto, tem para com as suas máquinas uma lógica de "se têm mais de seis anos é como se não existissem", logo são para deitar fora, que, obviamente, é boa para o negócio e má para o ambiente.)

Uma coisa é certa. Por muito que destruamos o planeta, de uma forma ou de outra ele há de sobreviver. A vida é extremamente resiliente (como demonstram os extremófilos, seres vivos que se adaptaram às mais extremas condições, onde pensávamos ser impossível alguma coisa viver).

A Terra, nos seus 4,54 mil milhões de anos, já atravessou pelo menos cinco períodos de grandes extinções. Num deles, a Extinção do Permiano-Triássico (há 252 milhões de anos), mais de 96% de toda a vida no planeta desapareceu. E depois recuperou. Muito diferente do que era, mas voltou.

Quase de certeza -- a comunidade científica não tem ainda dados suficientes para o afirmar sem sombra de dúvidas, mas é muito provável -- estamos a provocar a sexta grande extinção na Terra. Desta vez, não são vulcões, terramotos, cometas, meteoritos ou uma sucessão destes eventos que a provoca. É uma espécie saída dessa mesma biodiversidade que, qual parasita imparável, vai destruindo tudo o que toca para alimentar as suas necessidades.

Ao fazê-lo, está a hipotecar de forma permanente o seu futuro. Porque essa mesma espécie também não poderá sobreviver sem os mesmos ecossistemas que a geraram e está destinada à extinção.

Será?

Em meados do século passado o consenso dos especialistas era que o planeta seria incapaz de alimentar uma população mundial acima de cinco mil milhões de pessoas.

Somos atualmente mais de sete mil milhões. E há excedentes alimentares.

O que esses especialistas não poderiam prever eram os avanços na bioquímica, nos fertilizantes e, muito menos, na genética.

Hoje damos os primeiros passos na criação de carne artificial. Ainda temos quase tudo para descobrir na nutrição.

Claro que é preciso tempo e, sim, o secretário-geral da ONU, António Guterres, tem razão quando diz que o tempo está a esgotar-se. A crise da covid-19 veio mostrar à população em geral (para a maioria, pela primeira vez) como a ciência se faz por tentativa-erro, como a primeira resposta que os cientistas dão -- ao contrário do que vemos nos filmes -- é "não sei".

Mas o ser humano tem outra característica: é de todas as espécies conhecidas, a mais adaptável. E, tal como escreveu Arthur C. Clarke, a máquina mais versátil que, para já, existe, quer física quer intelectualmente.

O futuro vai ser difícil. Sim, claro que vai. Mas vai haver futuro. E, já agora, alguma vez ele foi fácil, na História?

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