A vã busca dos culpados pelos problemas do país

O ministro Augusto Santos Silva é perito em criar polémicas. Manteve o hábito quando disse que um dos principais problemas das empresas portuguesas é "a fraquíssima qualidade da sua gestão". Nas reacções que se seguiram, o debate fez-se por acusações cruzadas, na busca de alguém a quem atribuir as culpas pelos males da economia portuguesa. Dar prioridade à identificação de culpados, ao invés da compreensão de problemas complexos, reflecte um traço cultural-religioso que nos é característico - e que é hoje reforçado pela lógica comunicacional prevalecente. Mas é uma prática que pouco acrescenta e que muito ignora.

Faz pouco sentido um ministro de Estado fazer a afirmação que fez. É uma generalização injusta, uma simplificação excessiva e uma provocação estéril. As reacções à afirmação do ministro não foram mais sagazes. Se Santos Silva parecia estar a apontar o dedo à qualidade dos empresários, outros culpam os governantes e o Estado pela baixa produtividade da economia portuguesa. Para simplificação, simplificação e meia.

Existem elementos factuais nos dois lados desta polémica, que tornam menos fácil desmontar ambos os discursos.

É um facto que o nível de qualificações dos gestores portugueses é dos mais baixos da UE, reflectindo de resto o atraso nas qualificações dos adultos em Portugal. Isto não se traduz sempre em más práticas de gestão de empresas. No entanto, os poucos estudos comparativos disponíveis sobre a qualidade da gestão, como os que se baseiam nos dados do World Management Survey, sugerem que Portugal se encontra distante das melhores práticas internacionais neste domínio. Em alguns dos estudos que têm vindo a ser produzidos com base naqueles dados, a qualidade da gestão chega a explicar cerca de 30% da variabilidade estatística nos níveis de produtividade entre países e entre empresas de cada país.

Também é um facto que as condições para fazer negócios em Portugal são menos favoráveis do que noutras paragens - e que muitos dos problemas em causa decorrem da acção dos governantes e do Estado. Os elevados preços da energia (mesmo considerando os problemas de comparação internacional), a burocracia ainda excessiva e as dificuldades de acesso a crédito reflectem opções de governação e de regulação dos mercados que penalizam o desenvolvimento da economia nacional.

Ou seja, tanto aqueles que assinalam a baixa qualidade da gestão em grande parte das empresas portuguesas, como os que apontam o mau funcionamento do Estado, encontram dados que fundamentam as suas afirmações. Isto não significa que tenham razão quando pretendem atribuir a quem elegeram como culpados os problemas que enfrentamos.

Desde logo, os discursos sobre a qualidade da gestão privada ou da administração do Estado deixam de fora aspectos fundamentais para perceber a evolução recente da economia nacional e os desafios que o país enfrenta.

Por exemplo, não é possível perceber as dificuldades competitivas da economia portuguesa no quadro da zona euro sem ter em consideração o padrão de especialização produtiva, a distribuição de dimensões das empresas, ou o seu nível de capitalização. Também não é possível explicar o elevado endividamento externo (público e privado) do país sem ter em conta o impacto da liberalização financeira iniciada no final da década de 1980 e os seus efeitos na alocação de recursos entre actividades produtivas.

A tentativa de identificar culpados - com nomes e caras - para as dificuldades económicas do país ignora também a natureza complexa dos processos de desenvolvimento. Os argumentos em defesa deste ou daquele factor como decisivos para o aumento da produtividade passam quase sempre por identificar casos nacionais exemplares que assentam bem à narrativa pretendida: quem gostaria de pagar menos impostos fala na Irlanda ou em Singapura; quem defende uma forte intervenção do Estado, na Coreia do Sul ou em Taiwan; a Dinamarca ou a Suécia servem de exemplo para aqueles que se revêem no Estado de bem-estar e nas práticas de concertação social.

Mas há um problema: os processos de desenvolvimento são heterogéneos e não lineares. O que funcionou bem nuns casos, não funciona necessariamente noutros. Uma medida adequada para países que já atingiram um dado grau de desenvolvimento (ou que têm certas condições reunidas), pode não o ser para outros.

Mais ainda, os processos de desenvolvimento estão repletos de causalidades cumulativas - ou seja, sequências de processos que se reforçam mutuamente. Por exemplo: a baixa qualidade da gestão privada em Portugal decorre, em boa parte, da fraca presença de empresas de maiores dimensões a actuar em sectores mais sofisticados; estas características estruturais explicam-se em boa parte por um processo de industrialização tardia e um atraso histórico na educação dos portugueses; por sua vez, a baixa qualidade da gestão dificulta o crescimento das empresas e a emergência de actividades mais sofisticadas; sendo a maioria produção pouco exigente, há mais oportunidades de emprego para pessoas com qualificações reduzidas, o que incentiva muitos jovens a abandonar os estudos precocemente; a disponibilidade de mão-de-obra menos qualificada reforça um padrão de especialização baseado em actividades que não precisam nem de quadros altamente qualificados nem de gestores sofisticados. Por outras palavras, a história conta. E mudar a história não se faz da noite para o dia (pelo menos, sem grandes revoluções), nem alterando um ou outro aspecto isolado da realidade.

Tendo presente a complexidade inerente aos processos de desenvolvimento, é algo absurdo procurar culpados aqui e ali pelos desafios que a economia portuguesa enfrenta. Isto não implica ser complacente com as más escolhas ou a incompetência de alguns empresários e políticos. Apenas convida àqueles que falam em público a ser um pouco mais exigentes consigo próprios.

Economista e professor no ISCTE. (O autor escreve de acordo com a antiga ortografia)

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