A superioridade moral é da burguesia?

Ricardo Robles, o vereador especulador, não é um criminoso como Armando Vara (PS), Duarte Lima (PSD) ou Ferreira Torres (CDS), isto para falar apenas de alguns políticos efetivamente condenados em tribunal, entre os muitos destes partidos que, desde há 44 anos, fazem trafulhices. Mas, pelo exagero que se lê, parece que é.

Apesar disso, é justa a consideração de que o relato do próprio Robles sobre o processo de compra e tentativa de venda de um prédio no bairro de Alfama, em Lisboa, é contraditório com o discurso político do Bloco de Esquerda sobre o negócio do imobiliário e o problema da habitação na capital do país.

Essa contradição tem um óbvio custo político e está a ser pago. Nada a dizer.

O disparate político, financeiro e mediático em que Robles e o Bloco se meteram é, porém, terreno agora para uma sementeira de artigos e opiniões sobre uma pretensa "falsa moralidade" da esquerda dita "radical" ou "comunista" que, afinal, "não pratica aquilo que apregoa".

Há aqui uma vingança ideológica? O capitalismo e a grande burguesia estão a demonstrar a sua superioridade moral?

Se valorizar um artigo como o de José Manuel Fernandes, no Observador de segunda-feira, que aproveitou os erros de Robles e do Bloco de Esquerda para misturar na questão PCP, "jacobinos" e o texto "A Superioridade Moral dos Comunistas", de Álvaro Cunhal, a resposta parece ser afirmativa.

O articulista acusa: " os radicais de hoje, como os radicais de ontem, vêem-se como moralmente superiores porque acham que lutam por uma sociedade sem classes".

A primeira pergunta que tenho a fazer é esta: a moral vigente não é uma moral determinada pelos interesses das classes dominantes?

O "pai" do liberalismo económico, Adam Smith, o guia ideológico de tantos destes críticos de Robles, constata claramente, na "Riqueza das Nações", que sim: " Em toda a sociedade civilizada, em toda a sociedade em que se tenha estabelecido plenamente a distinção de classes, sempre houve simultaneamente dois esquemas ou sistemas diferentes de moralidade; um deles pode ser denominado rigoroso ou austero e o outro liberal ou, se preferirmos, frouxo. O primeiro costuma ser admirado e reverenciado pelas pessoas comuns e o segundo geralmente é mais estimado e adotado pelas chamadas pessoas de destaque".

Smith é crítico em relação às classes dirigentes: "o desregramento e a extravagância de vários anos nem sempre levarão à ruína um homem de posição, e as pessoas dessa classe são fortemente propensas a considerar o poder de entregar-se até certo ponto a tais excessos como uma das vantagens da sua fortuna, e a liberdade de fazer isso sem censura ou repreensão como um dos privilégios condizentes com sua posição".

Isto não podia ser escrito por um marxista-leninista?...

Talvez. Afinal, no tal livrinho "A Superioridade Moral dos Comunista", Álvaro Cunhal define assim o comportamento moral da grande burguesia capitalista: "individualismo e egoísmo ferozes, indiferença pela sorte dos seres humanos, rapacidade, venalidade, completa falta de escrúpulos, redução a simples mercadorias dos valores culturais e espirituais."

Não é precisamente isto que vemos acontecer no nosso mundo do século XXI, todos os dias, nas notícias dadas pelos sites de informação e pelos telejornais?

O liberal Adam Smith acredita, apesar de tudo, na liderança moral das classes dirigentes (e, consequentemente, na sua superioridade), através do acesso à cultura e à educação, dando o exemplo do seu papel no combate ao fanatismo religioso: "A ciência é o grande antídoto para o veneno do fanatismo e da superstição, e se todas as classes superiores da população estivessem imunizadas contra esse veneno, as classes inferiores não poderiam ficar muito expostas a ele", escreve.

O comunista Álvaro Cunhal, por seu lado, acredita que só o proletariado pode assegurar uma moral aceitável por todas as classes: "O proletariado reage e luta não apenas contra a exploração a que é sujeito, mas contra todos os abusos, todas as manifestações de arbitrariedade, de opressão e de violência quaisquer que sejam as classes que são vítimas".

Do lado de Adam Smith interpreto uma visão desencantada em relação à moral das classes poderosas mas que é compensada pela convicção de que toda a sociedade terá maioritariamente de reger-se pelo código ético adotado por essas classes, restando-lhe a esperança de que os poderosos acabem por encontrar, pela educação, pelo progresso económico, pelo papel do Estado, o caminho do equilíbrio e da correção.

Do lado de Álvaro Cunhal temos a visão de que os líderes das classes oprimidas, se derrubarem as classes dominantes segundo os princípios do comunismo, terão de rejeitar a moral que os subjugou, substituindo-a por outra moral: a de homens e de mulheres iguais numa sociedade sem classes.

Do lado de Adam Smith temos a declaração implícita da superioridade moral da burguesia, não por ser intrinsecamente mais justa mas por ser a classe dominante e mais dinâmica em muitos aspetos essenciais da vida humana.

Do lado de Álvaro Cunhal temos a declaração explicita da superioridade moral dos comunistas, não por dominarem a vida humana mas por os seus princípios serem intrinsecamente mais justos.

Tanto de um lado como do outro desta batalha se reclama, portanto, de forma mais ou menos clara, a superioridade moral sobre o outro lado. A arrogância, se existe, é recíproca.

E tanto de um lado como do outro haverá sempre indivíduos que defraudam a moral da sua ideologia e "não praticam aquilo que apregoam", como fez Ricardo Robles.

Mas, quanto a mim, José Manuel Fernandes tem toda a razão: os comunistas " vêem-se como moralmente superiores porque acham que lutam por uma sociedade sem classes".

Afinal, pugnar por uma sociedade sem classes, sem oprimidos, sem opressores, não é, moralmente, o objetivo político mais correto?... Parece-me, incontestavelmente, que sim.

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