O estranho caso do mergulho de Rui Rio no precipício

Não sabemos se estava ou não nos planos. Se tudo o que se passou entre a noite de quinta e a tarde de sexta-feira foi uma elaborada jogada de xadrez, pensada e estudada por António Costa com muitos movimentos de antecipação, ou apenas a sorte de um drible mágico que vai acabar com um remate indefensável, só iremos saber daqui por uns meses.

Terá sido excesso de confiança de quem, no PSD e no CDS, começou a ver nas sondagens um aliado e nos casos das nomeações de familiares um fogo lento que não havia de se apagar? Muito provavelmente.

O executivo tem o tema da reposição do tempo de carreira dos professores bem estudado. Não se brinca com coisas sérias, com decisões que podem custar pontos nas sondagens e votos nas urnas, e a posição do governo a cada momento da negociação com os sindicatos, apenas um dos lados da teimosia, foi sempre bem apoiada por estudos de opinião e testada em sessões de focus group.

Esta sexta-feira, quando soltou a ameaça de demissão, António Costa saberia certamente, com um bastante aceitável grau de certeza, o que estava a arriscar e o que poderá ganhar no final do jogo.

O primeiro-ministro e o resto do país político estão em campanha há meses. Mas, vamos a um sinal. Rebobinem o filme e revejam os primeiros longos minutos da declaração ao país. Sim, foi campanha eleitoral - obra feita, conquistas, números e estatísticas. Campanha, com toda a atenção de um país em suspenso desde as primeiras horas da madrugada. A oferta da oposição, o pretexto para o drama, tinha sido votada na noite anterior no Parlamento. Uma votação de um documento sem conteúdo, só intenções. Não há fundos de campanha que paguem isto e Costa aproveitou...

Há longos meses que António Costa sabe que este é um assunto em que as perdas compensam os ganhos. O que se perder em votos entre professores, familiares e outros grupos de funcionários públicos, ganha-se fora dessas audiências com o reforço daquele que é o principal, se não mesmo o único argumento do PS para a campanha das legislativas - "é possível fazer diferente e ter contas certas"; "o rigor orçamental não é exclusivo da direita" ou "conseguimos o défice zero apesar da devolução de rendimentos".

A acreditar nos valores divulgados pelo governo (e é muito bem-vindo algum fact-checking nos próximos dias), os custos da votação em comissão, na noite de quinta-feira, chegam aos 0,4% do PIB. Rui Rio e Assunção Cristas - Jerónimo de Sousa e Catarina Martins têm outros caminhos, mais previsíveis para responder a esta pergunta - podem honestamente dizer que convivem tranquilamente com uma carta do governo, deste ou do próximo, à Comissão Europeia para anunciar que houve uma inversão de rumo na consolidação das contas públicas em Portugal?

A fórmula "aprovamos agora, mas não pagamos já" de PSD, CDS, PCP e BE, que pode ser derivada num mais popular "depois logo se vê quem paga a conta", é um prodígio de tática política. Não se estranha em partidos de protesto, que se sentem libertos de responsabilidades desde que garantiram a aprovação do OE2019 e que precisam de afirmar agendas próprias para os próximos meses de campanha, mas é muito difícil de encaixar na estratégia eleitoral do PSD, seja ela qual for.

Como é que o PSD vai justificar a manutenção do sentido de voto em plenário, daqui por duas semanas, quando o seu público-alvo eleitoral é precisamente aquele eleitorado mais sensível ao argumento do equilíbrio orçamental, do rigor nas contas públicas, do "não podemos deitar a perder tudo o que se conquistou quando foi feito o ajustamento"?

O PSD talvez não perceba, na vertigem de agradar aos professores, mas está a alienar boa parte da sua base. Quem olhava para Passos, Gaspar e Albuquerque como exemplos de rigor orçamental, como vai olhar agora para Rui Rio? Este é o mesmo Rui Rio que anda há anos a fio a anunciar-se como um fundamentalista das contas equilibradas, da ponderação na despesa. E sim, é o mesmo homem que tinha um cartão com a palavra "não" em cima da secretária de Presidente da Câmara do Porto, para mostrar aos vereadores sempre que por lá apareciam com uma proposta que aumentava a despesa.

Do ponto de vista do PSD, nada disto faz qualquer sentido. Sobretudo quando esta votação surge numa altura em que o que era expectável era que o PSD deixasse o PS em lume brando a lidar com o tema das nomeações de familiares e amigos ou com o aumento da contestação social, lentamente a perder intenções de voto nas sondagens num penoso caminho rumo a uma vitória poucochinha nas europeias.

É óbvio que os efeitos políticos desta crise vão acabar por diluir-se no tempo. A serem antecipadas, as legislativas hão de ser marcadas para meados de setembro, uns 15 dias antes da data já definida pelo Presidente. Não será pelo efeito no calendário, mas antes pelas perceções que pode haver aqui matéria para o PS virar o jogo.

Por muito que PSD e CDS venham a recuperar uma linha discursiva de ataque político ao governo e ao PS, o mal está feito. Ofereceram a António Costa, a menos de um mês de umas eleições europeias que tinham tudo para correr mal, uma hipótese dramatizar e de sair do encosto nas cordas. De uma penada, Rio e Cristas, com uma ajuda de PCP e Bloco, fizeram esquecer os casos que vinham perturbando o PS e, talvez mais decisivo, reforçaram a imagem dos socialistas enquanto defensores do rigor orçamental.

Para dois partidos que andavam em campanha e nos debates com fotografias de José Sócrates ao lado de Pedro Marques e António Costa, a tentar demonstrar que este PS ainda é o que era, isto não podia ter corrido pior.

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