A crise do PSD (IV): Rio, Passos e o passismo

1 Nos últimos anos, pelo menos desde 2015, tenho insistido em dois temas sobre o PSD - crise estrutural e "spdização". Foi assim com a trilogia que antecede este artigo. Não posso esconder o meu enorme contentamento ao ver as minhas teses, finalmente, partilhadas em múltiplas colunas de opinião do Observador, após a eleição de Rui Rio. Acontece que a crise estrutural e a "spdização" do PSD não começaram com a eleição de Rui Rio no dia 14 de janeiro de 2018, vêm de muito antes e foram obviamente agravadas nos últimos anos (como confirmam os maus resultados históricos do PSD em todas as eleições desde 2013 - mesmo a "vitória" de 2015 foi um mínimo histórico de votos da direita). Acredito que seria inevitavelmente acelerada com a eleição de Santana Lopes e Rui Rio talvez seja o líder que possa, pelo menos, suavizar a queda nos próximos tempos (uma derrota em 2019 na casa dos 30% não é uma hecatombe nos 20%).

2 Abusando das siglas e simplificando a sua evolução histórica, o PSD é uma coligação do PPD com a ASDI. Foi esse o seu trunfo no cavaquismo. Com a generosidade europeia, havia dinheiro para atender ao pendor mais reformista e liberal do PPD e financiar o Estado social da ASDI. Desde 1995, sem a imensa generosidade europeia disponível até então, com o PSD prisioneiro de lógicas internas complexas, os programas do PPD e da ASDI tornaram-se contraditórios e até conflituantes. Aquilo que era uma coligação de soma claramente positiva nos anos cavaquistas passou a ser uma coligação de soma negativa nos anos posteriores. Aquilo que era uma vantagem eleitoral sobre o PS e sobre o CDS passou a ser uma luta fratricida que acantonou o partido. O PPD e a ASDI simplesmente já não conseguem entender-se para governar porque têm ambições distintas, programas diferentes, prioridades antagónicas.

O que a direita portuguesa e o país precisavam agora era de clarificação. Em vez do PSD, os eleitores deveriam poder optar claramente entre o PPD e a ASDI (e não apenas os quarenta mil filiados). Certamente, no curtíssimo prazo, a divisão de votos entre o PPD e a ASDI poderia favorecer aritmeticamente o PS (que, numa primeira fase, seria o único partido acima dos 30%). Mas, no médio prazo, ganhava a direita e ganhava Portugal. A ASDI teria a possibilidade de entender-se com o PS numa qualquer "engenhoca" ao centro. O PPD poderia aproximar-se do CDS e formar um qualquer PàF mais estável, com um programa verdadeiramente reformista (quem sabe mesmo uma fusão). E, numa futura maioria ASDI/CDS/PPD, as opções governativas seriam reflexo da verdadeira correlação de forças na sociedade portuguesa e não o produto de uma guerra civil partidária determinada pelos caciques internos. A clarificação, contudo, não vai acontecer. Há um arsenal legislativo que dificulta qualquer cisão. Há um aparelho comunicacional absolutamente contrário a projetos partidários distintos. Há uma obsessão do regime em não repetir o divisionismo da 1.ª República. Sendo assim, o PPD seguirá coligado com a ASDI e a ASDI seguirá coligada com o PPD. Ambos "spdizando" lado a lado no PSD!

3 Fechou-se o ciclo Passos. Mas, há que dizer com objetividade, quem derrotou Passos não foi o PS ou Costa, nem mesmo a geringonça, mas sim o passismo. Importa, pois, distinguir Passos, o homem político, do passismo, esse movimento orgânico da direita que ocupou o partido, as redes sociais e muita opinião publicada. Onde Passos foi liberal, o passismo tornou-se conservador, mesmo reacionário. Onde Passos foi corajoso e decidido, o passismo exibiu fundamentalismo e radicalismo. Onde Passos apostou no fair play e numa forma elegante de estar na política, o passismo adotou uma linguagem truculenta, caceteira, insultuosa, quando não mesmo boçal. Onde Passos falava ao país, o passismo dirigia-se a um grupo cada vez mais restrito da direita intransigente. Onde Passos abriu e somou, o passismo fechou e subtraiu. Onde Passos tolerou, o passismo estorvou. Onde Passos poderia ter um programa de governo para um Portugal reformista e moderno, o passismo transformou o ódio ao PS e a António Costa numa ideologia. Se até outubro de 2015 talvez Passos pudesse inspirar o passismo, depois das eleições de 2015, Passos ficou prisoneiro do passismo. E foi o passismo que matou politicamente Passos, não a esquerda.

Obviamente que a irracionalidade da direita não é nova. O salazarismo, na sua inflexibilidade dogmática, boicotou o marcelismo, matou qualquer possibilidade de transição à espanhola, implodiu o Estado Novo e acabou por entregar o poder à tal esquerda que tanto dizia abominar. O cavaquismo, na sua intolerância com qualquer pluralismo de opinião, acabou várias vezes com as possibilidades eleitorais do PSD: tirou o tapete a Fernando Nogueira em 1995, dinamitou Santana Lopes com a má moeda em 2005 (e depois culpou Sampaio), enterrou Manuela Ferreira Leite na asfixia democrática em 2009 (e depois responsabilizou o Público pela loucura das escutas), deixou Passos Coelho sem margem nos cenários já todos pensados em 2015 (e depois desculpou-se dizendo que a realidade vence a ideologia). O passismo, no seu completo ressabiamento irracional, limitou a capacidade de Passos Coelho se reinventar e reconquistar o centro que perdeu nas legislativas de 2015. E matou-o efetivamente nas autárquicas. Parece-me muito possível, mesmo até desejável, que Passos tenha ainda uma carreira política pela frente (quem sabe uma candidatura presidencial). Mas tudo vai depender da sua capacidade de se afastar definitivamente do passismo e recentrar-se junto do eleitorado moderado que confiou nele em 2011.

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