Se calhar o melhor é dar já um Nobel e um Óscar a Trump

Os meus planos eram claros para aquelas presidenciais de 2000: acabava a cobertura de duas semanas de campanha através da América em Nashville, assistia ali à provável festa da vitória de Al Gore na terça-feira, 7 de novembro, enviava a reportagem da capital do Tennessee para o DN a 8 e regressava de avião a Portugal logo no dia 9. Fiquei nos Estados Unidos mais duas semanas, a ver gente a contar e recontar votos em West Palm Beach, a falar também com gente que protestava naquela cidade da Florida contra os avanços e os recuos da justiça, até que recebi ordem para voltar a Portugal. E só a 12 de dezembro, portanto mais de um mês depois da votação, George W. Bush foi dado como vencedor. Fiz a notícia já na redação em Lisboa.

Nunca esquecerei a dignidade de Gore em todo o processo. Ao vice-presidente de Bill Clinton tudo correu mal: foi derrotado no seu estado natal, foi o preferido no voto popular mas perdeu no Colégio Eleitoral, e a estocada final limitou-se a uma diferença de 537 votos na Florida, estado onde votaram seis milhões de pessoas. Mas quando os seus apoiantes insistiram que devia contestar a decisão do Supremo Tribunal de parar a recontagem, o candidato democrata optou por reconhecer a vitória do rival republicano. E até fez um discurso conciliatório.

Ficou a América a ganhar, pois já se adivinhava um país partido ao meio, suspenso de recursos e mais recursos judiciais.

Não vale a pena pensar no que teria sido a América e o mundo se Gore tivesse sucedido a Clinton. O 11 de Setembro teria acontecido na mesma, a crise económica de 2008-2009 também. Provavelmente ter-se-ia, porém, ganho tempo precioso na luta contra as alterações climáticas, até porque Gore sempre foi um campeão da causa da ecologia e isto em épocas em que nos Estados Unidos isso era coisa de radicais.

Donald Trump não é nenhum Gore. Está-lhe nos antípodas mesmo. Ao retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o Clima, assinado na presidência de Barack Obama, mostrou ser indiferente ao destino do planeta. Ao apoiar os negacionistas do aquecimento global, o presidente cessante revelou uma inconsciência total, esquecendo que tem filhos e netos. Mas há um ponto em que Trump, imerecidamente, fez melhor do que Gore: chegou a ser eleito presidente, mesmo perdendo no voto popular para Hillary Clinton em 2016.

Nem que fosse pelo cargo que lhe foi confiado durante quatro anos, Trump deveria ter sabido controlar as emoções melhor. Quando quis travar a contagem dos votos antes de milhões deles serem tidos em conta, do Nevada à Geórgia, revelou um desrespeito total pelas regras da democracia. Quando insistiu que o caminho de Joe Biden para a vitória assentava numa fraude em grande escala foi tão absurdo que as televisões tiveram de deixar de emitir. Com os números pouco a pouco a confirmarem a derrota do candidato republicano face ao democrata (que diferença de discurso, que serenidade, que confiança na vontade do povo), Trump arrisca-se a sair pela porta pequena, deixando triste memória da sua passarem pela Casa Branca, mesmo que o legado vá ser duradouro, sobretudo por causa dos três juízes conservadores que nomeou para o Supremo Tribunal, o equivalente ao português Tribunal Constitucional.

Pior ainda do que sair pela porta pequena será Trump recusar-se mesmo a sair. A Casa Branca não tem um dono, só um inquilino. O primeiro presidente, George Washington, fez questão de só cumprir dois mandatos de quatro anos para criar uma tradição republicana que destoasse totalmente da lógica monárquica, como esse Jorge III de Inglaterra recém-derrotado na guerra mas que mesmo assim reinou durante seis décadas. E quando Franklin Roosevelt, durante a Segunda Guerra Mundial, ousou candidatar-se a um terceiro e a um quarto mandatos, não tardou muito que uma emenda constitucional oficializasse a ideia de Washington, o pai da independência.

Por isso Biden está prestes a tornar-se o 46.º presidente, enquanto no mesmo espaço de tempo, pouco menos de 250 anos, a Grã-Bretanha só teve nove monarcas, incluindo Isabel II. Ao democrata caberá interpretar com sabedoria a razão de tantos milhões de votos no republicano atípico.

A democracia americana sobreviverá ao legado de quatro anos de presidência Trump, tal como sobreviverá a quaisquer tentações deste de conquistar nos tribunais, em especial no Supremo, aquilo que perdeu nas urnas. Mas olhando para o sucesso de Gore depois de 2000, admirado dentro e fora do seu país, premiado com o Nobel da Paz e também com um Óscar, quase que apetece dizer que ofereçam o mesmo ao magnata do imobiliário. E já. Para o acalmar, para lhe alimentar o ego.

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