O que ardeu em Paris não foi uma igreja

O que ardeu ontem em Paris não foi uma igreja. Se as chamas em Notre Dame - Nossa Senhora - comoveram meio mundo, deve-se a uma dimensão que vai muito além da meramente religiosa, mesmo que os 900 anos das suas pedras testemunhem a devoção de uma França que embora laica se orgulha também de ser La fille aînée de l'Église, a mais velha das nações católicas, referindo-se ao batismo de Clóvis, rei dos Francos, no final do século V.

A Catedral de Notre Dame é tanto o sítio onde um inglês se fez rei de França durante a Guerra dos Cem Anos, como o local onde Napoleão tirou das mãos do Papa a coroa e se fez imperador. É também a fonte de inspiração de Victor Hugo para um dos seus mais conhecidos romances e em consequência tema de inúmeros filmes, o mais popular talvez O Corcunda de Notre Dame que a Disney realizou em 1996. E foi ali que em agosto de 1944 se celebrou a Libertação de Paris, com o general de Gaulle presente, ele que conseguiu fazer de um país derrotado em 1940 um dos Aliados vencedores dos nazis na Segunda Guerra Mundial.

Os danos não são irreversíveis, pois a estrutura e as torres estão a salvo, garantiu o chefe dos bombeiros. E o presidente Macron prometeu que a reconstrução será feita. É um alívio, uma consolação, primeiro que tudo para os franceses, para quem gosta de França também. Por isso tantos perguntam como poder contribuir.

Do americano Trump à britânica May, passando pelo canadiano Trudeau ou o brasileiro Bolsonaro, não faltaram líderes estrangeiros a lamentar a tragédia e a prometer a ajuda que fosse precisa. Mas é a comoção geral que mostra como Notre Dame é única. Mesmo as crianças que hoje pensam mais em Disneylândia quando se lhes fala de Paris sabem que naquela igreja no coração da capital francesa "vive" Quasimodo, o corcunda nascido da imaginação de Hugo. Que seja referida pelos jornais franceses como o monumento mais visitado da Europa é prova dessa extrema popularidade do templo católico, chorado também e muito pelo Vaticano, mas património tão universal como o Museu do Louvre ou a Torre Eiffel, outros dos símbolos da grandeza de Paris, da grandeza de França.

Dirão alguns que há tragédias piores, onde morre gente e não apenas velhas paredes ardem. É verdade. E são de lamentar, contrariar, atenuar. Mas o tempo não é para comparações. Foi património cultural da humanidade no mais estrito sentido do termo que esteve em risco e a sua perda tornaria o mundo mais pobre, tal como mais pobre ficou quando no ano passado ardeu no Rio de Janeiro o palácio que foi de D. João VI, também casa de D. Pedro I do Brasil (IV de Portugal) e berço da nossa D. Maria II, que ali nasceu fez há dias 200 anos exatos.

Teremos sempre Paris, esta manhã já não a mesma. Teremos sempre Notre Dame, acreditemos. Agora uma Catedral em ruínas, num futuro não muito distante outra vez com filas enormes de turistas à porta para a visitar. Viva a França.

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