O Nilo vale bem uma guerra entre Egito e Etiópia mas ninguém ficará a ganhar com ela

Num exercício de futurismo, a Economist descrevia numa recente edição a China em 2050, um ano depois de celebrar o centenário do regime comunista, como enfrentando divisões na liderança por causa da gestão dos rios e das diferenças de recursos hídricos entre as províncias. Uma espécie de alerta da revista britânica sobre como o aquecimento global poderá banalizar as muito faladas guerras pela água, até dentro de um país, quanto mais entre Estados com velha tradição de inimizade.

Mas não é preciso imaginar o mundo daqui a três décadas para se detetar uma possível guerra pela água. Basta olhar para a tensão atual entre o Egito, que tanto depende do Nilo, e a Etiópia, que está prestes a concluir uma gigantesca barragem capaz de aprisionar o Nilo Azul, o principal fornecedor do caudal do maior rio de África e do mundo. Já em 2013, quando Mohamed Morsi era presidente, os egípcios falavam de usar aviões para bombardear a Barragem do Grande Renascimento Etíope, agora o estado de espírito no país não é muito diferente, mesmo que Abdel al-Sisi ainda tente que seja o Conselho de Segurança das Nações Unidas a refrear Adis Abeba. Perante o tom de voz por vezes ameaçador do Cairo, também o primeiro-ministro Abiy Ahmed já falou de milhões de etíopes dispostos a morrer para proteger a barragem, palavras estranhas vindas do homem que ganhou o Nobel da Paz em 2019, no caso por negociar com a vizinha Eritreia.

Egito e Etiópia nem sequer vizinhos são. Entre eles está o Sudão, que foi o maior país de África até à independência do Sudão do Sul. Mas os 90% de egípcios que vivem junto ao Nilo, ou seja 90 milhões de pessoas, temem que a água lhes falte, em especial nos anos de pouca chuva, se os etíopes insistirem em manter cheia a albufeira. Para a Etiópia, a barragem promete ser a solução para acabar com os cortes de eletricidade e ainda por cima ganhar divisas com a exportação para os países vizinhos.

Percebe-se a desconfiança mútua, pois entre eles a tradição de inimizade não é velha, é velhíssima. Manuel João Ramos, antropólogo português que conhece bem a Etiópia, relembra que a disputa entre egípcios e etíopes remonta à Alta Idade Média. Mas na imaginação do italiano Giuseppe Verdi, tudo começou no tempo dos faraós, pois a heroína da sua ópera Aida é uma princesa etíope envolvida numa paixão proibida com o general egípcio Radamés. Até portugueses andaram envolvidos nesta luta, muito de potência cristã contra potência islâmica. Nessas guerras religiosas, em que os egípcios apoiavam sempre os rivais muçulmanos da antiga Abissínia, chegou a morrer Cristóvão da Gama, filho de Vasco da Gama, que veio em socorro do reino cristão que muitos acreditavam ser o do Prestes João.

O chamado Nilo Branco nasce no lago Vitória, no Uganda, e junta-se em Cartum, Sudão, ao Nilo Azul, que corre das montanhas etíopes. Depois o Nilo propriamente dito segue para norte atravessando o deserto, fazendo férteis as terras egípcias, para desaguar por fim no Mediterrâneo.

A primeira pedra da barragem etíope foi posta em 2011 por Meles Zenawi, antigo guerrilheiro que foi durante duas décadas o homem forte da Etiópia. Foi a sua derradeira tentativa de recuperar a popularidade de outrora e, na falta de financiamentos, não hesitou em mobilizar o espírito patriótico da população, um pouco à força no caso do contributo dos funcionários públicos. Também nos anos 1960, o egípcio Gamal Abdel Nasser imaginou uma grande barragem no Nilo, mil quilómetros a sul do Cairo, como motor do desenvolvimento do país das pirâmides. Assim nasceu a Barragem do Assuão, finalizada em julho de 1970, faz agora meio século.

Zenawi morreu sem ver concretizado o seu sonho, Nasser morreu meses depois de ver o seu tornar-se realidade. Liderados por Al-Sisi e Abiy Ali, os dois colossos, países de 100 milhões e de 110 milhões de habitantes, continuam pobres e já se percebeu pela história, mundo fora, que uma barragem não é solução mágica para o desenvolvimento. O Nilo merece uma guerra, mas certamente fazer guerra pela água não fará nem Egito nem Etiópia mais ricos. Negociar é obrigatório e o resultado do que se passar entre o Cairo e Adis Abeba dirá muito sobre que futuro espera a humanidade.

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