O Líbano sempre sob a ameaça da guerra de todos contra todos 

A explosão em forma de cogumelo transmitida pelas televisões do mundo inteiro certamente contribuiu para o clima de histeria em torno do sucedido nesta terça-feira em Beirute ainda antes de se saber ao certo o número de vítimas (grande!), mas só quem não conhecer a história do pequeno Líbano pode duvidar de como algo que até pode ter sido acidental é naquele país explosivo (e aqui não estou a fazer nenhum jogo de palavras).

Que o Hezbollah e Israel se tenham apressado a negar responsabilidades mostra logo como das rivalidades internas ao jogo de influências dos vizinhos o Líbano é frágil. Afinal, por muito admirável que seja o seu mosaico étnico-religioso, a verdade é que o Líbano nasceu da iniciativa dos franceses, que entre as duas guerras arrancaram este pedaço de Síria histórica para tentarem criar um país para os árabes cristãos, maioritários então naquela faixa costeira junto ao Mediterrâneo, mais ou menos coincidente com a antiga Fenícia.

Independente a seguir à Segunda Guerra Mundial, o Líbano viu a demografia atraiçoar os desígnios dos franceses e os muçulmanos tornarem-se pouco a pouco a maioria. Mesmo assim, e atenção que o Líbano tem seguido quase sempre o jogo da democracia, a Constituição reserva a presidência da república para um cristão maronita, o cargo de primeiro-ministro para um muçulmano sunita e a presidência do parlamento para um muçulmano xiita. O tal mosaico étnico-religioso é, porém, bem mais diverso, basta pensar nos numerosos drusos.

Entre 1975 e 1990 deu-se a guerra civil. Houve envolvimento estrangeiro, desde o israelita, para contrariar os guerrilheiros palestinianos baseadas no Líbano depois de expulsos da Jordânia, até ao sírio, espécie de grande irmão a intervir para salvar o mais pequeno.

As tropas sírias só saíram do Líbano depois do assassínio do primeiro-ministro Rafik Hariri em 2005. E se as suspeitas recaíram sobre os serviços secretos sírios, logo depois o dedo foi apontado ao Hezbollah, com quatro dos seus militantes a serem julgados à revelia por um tribunal internacional em Haia e a sentença a ser conhecida nesta semana. A explosão, a ser um atentado, poderia ser um aviso do Hezbollah ao campo rival, liderado pelo clã dos Hariri e apoiado pelo Ocidente e pela Arábia Saudita.

O Hezbollah é um partido mas também um movimento e recusa entregar as armas ao exército libanês. Goza do prestígio de ter forçado a retirada israelita do sul em 2002 e de manter a pressão sobre Israel. Ora, esta pressão, através de ataques com rockets, já deu origem a uma guerra em 2006 e ainda há dias houve acesos combates fronteiriços. O Hezbollah, apoiado pelo Irão, ajuda o governo de Bashar al-Assad na Síria e quando procura trazer armas para o Líbano é atacado pela aviação israelita. Não seria surpreendente que Israel atacasse no porto de Beirute um armazém suspeito.

Não é impossível também que, a tratar-se de um atentado, haja manipulações obscuras, a tentar acicatar os ódios comunitários. No passado, os libaneses já mostraram apreciar a convivência e a sociedade liberal que é legado dos franceses, mas também já foram capazes de se envolver em ciclos de vingança intermináveis.

Sem petróleo (mas talvez com gás natural no Mediterrâneo), o Líbano depende de ser visto como um oásis de estabilidade e tolerância no Médio Oriente. Isso atrai investimentos, depósitos bancários e turistas, sobretudo do golfo Pérsico, em busca de um refúgio liberal que fale árabe. Estas imagens a recordar a guerra são terríveis. Só vão agravar uma crise económica que a pandemia já tinha extremado.

Evitar que a seguir à espetacular explosão venham outras, mais pequenas mas mais incontroláveis, é importante. Seja acidental ou não o que se passou. O peso do passado é muito naquelas bandas, o do presente também: a rica Europa, com 500 milhões de habitantes, abanou em 2015 com a chegada de dois milhões de refugiados sírios; pois, o Líbano, com seis milhões de habitantes, acolhe 1,5 milhões.

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