Este muro era para impedir que saíssem 

A frincha no muro tem escassos milímetros, mas chega para se ver a faixa da morte, com a sua velha torre de controlo e o caminho usado pelos guardas fronteiriços para fazer a patrulha. Dos espigões de ferro que se erguiam do solo (a "relva de Estaline") e do arame farpado que os antecedia já não há vestígios. Ao fundo, talvez a uns 60 metros, surge o obstáculo final, outro muro de betão, mais alto e sem quaisquer aberturas. E visível ainda, com dificuldade, aparece o topo dos edifícios do outro lado, o livre, da Bernauer Strasse, uma rua berlinense cheia de histórias trágicas da Guerra Fria, daquelas que inspiraram os primeiros romances de espionagem de John le Carré. É esta experiência de um tempo de prisão que acabou a 9 de novembro de 1989 que oferece o Memorial do Muro de Berlim, hoje a parte mais bem conservada dessa fronteira artificial que separava Berlim Oriental, sob tutela comunista, de Berlim Ocidental, parte da RFA, fiel aos valores da democracia e da liberdade.

Faz agora 30 anos que caiu o muro da vergonha, mas as palavras acima, 100% atuais, escrevi-as em 2014, quando estive em Berlim para uma reportagem sobre os 25 anos do evento que pôs fim à Guerra Fria e prenunciou a reunificação alemã de 1990. E sublinho que nada de romântico há naqueles restos da barreira de segurança, muito mais do que um simples muro e, portanto, tão difícil de ultrapassar que mais de cem pessoas morreram na tentativa e milhões de outras, com medo, nem ousaram ver se era possível sair da gigantesca prisão chamada RDA, ou Alemanha comunista.

Sim, porque o Muro de Berlim nada tem que ver com os outros muros que o mundo conhece, seja o que Trump quer fortalecer na fronteira com o México, o que Israel edificou ao longo da Cisjordânia ou o que os espanhóis construíram em redor de Ceuta. Estes três muros querem impedir gente de entrar, o de Berlim existia para não deixar ninguém sair. É uma grande diferença. Nunca esquecer.

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