Uma potência franco-alemã

Nas últimas semanas Merkel e Macron definiram, em conjunto ou em acordo, o essencial da agenda europeia. Da proposta de um plano de recuperação à reação possível à Bielorússia e ao Líbano (onde a explosão no porto ainda pode acabar a fazer implodir o regime), Alemanha e França ditaram os termos das respostas europeias. Alguns viram nisto o regresso do eixo franco-alemão que ditou o destino da Europa nos anos 1980 e 90, e sempre que alguma coisa de fundamental acontece. Em parte é isso, mas há mais ambição.

É verdade que a relação entre Paris e Berlim parece ser agora melhor do que nos últimos anos. O alinhamento é tanto que Angela e Emmanuel até se visitaram nas respetivas residências de verão.

Sem Reino Unido para atrapalhar e com uma Itália que nunca conseguiu ter o protagonismo que poderia, França e Alemanha são hoje os poderes europeus. E embora possam ter sido surpreendidos pela resistência dos frugais (ou nova Liga Hanseática), a verdade é que cederam, mas não no que lhes era essencial: reforçar a coesão interna e a perceção de relevância da União Europeia.

Paris e Berlim são os dois Estados europeus com mais ambições e relevância global. Um tem a economia e a proximidade com o leste, o outro tem os despojos do velho prestígio (o lugar permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas) e o poder militar que ter armas nucleares, apesar de tudo, dá. Mas a ambos falta muito para se compararem com a China, a Rússia ou os Estados Unidos. Seja a relevância militar de um, seja a economia do outro. Seja a população de ambos.

Sem a União Europeia, Alemanha e França jogariam no campeonato do Japão, do Canadá ou do Reino Unido. É importante, são os outros poderes do mundo, mas não são as potências globais.

Com a força da União Europeia, a sua economia, a sua população, a sua prosperidade, alemães e franceses têm um lugar no mundo que sozinhos não teriam. A Europa dá-lhes escala.

Se o equilíbrio global continuar a transformação em curso, com os Estados Unidos a preocuparem-se sobretudo com a China e com alianças no Pacífico (que um presidente sensato pode conseguir fazer), com a China a fazer pressão económica e política sobre os países potencialmente dependentes, e com a Rússia a transformar-se numa potência regional com uma estratégia desestabilizadora, a Europa terá de ocupar outro espaço e poderá ter mais relevância. (Para isso necessitará de armas e disponibilidade para as usar - não há poder sem a possibilidade do uso da força -, e de tecnologia. Foi por isso que Macron fez integrar a defesa no portf´olio do comissário francês.)

É por isso que Merkel e Macron se entendem. E é por isso que precisam que a Europa se aprofunde e ganhe relevância. As crises em curso, a da pandemia e a da relação atlântica, são a oportunidade de se tornarem as faces visíveis de uma potência global em emergência.

Pelo caminho parecem ter feito uma espécie de Tordesilhas, em que a Alemanha trata do leste e a França se interessa pelo sul. Há, no entanto, um problema que terão de resolver: a Turquia. Para Macron, as ambições de Erdogan, além de tudo o mais, são uma ameaça aos seus interesses regionais. Para Merkel, tudo isso será verdade, mas há demasiados turcos na Alemanha para arranjar sarilhos.

Neste contexto, é fácil fazer acordos de 750 mil milhões. É um preço muito razoável a pagar.

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