A Justiça é burra

O brasileiro Nelson Rodrigues, o melhor cronista da língua portuguesa - hei, direitolas, ele é quase dos vossos, mas inteligente, Nelson era de direita - foi dos primeiros a comentar futebol na televisão, anos 1960. Via o jogo - e via mal, era pitosga - e ia comentá-lo para o estúdio da Globo. Jogo de futebol, para ele, era como deve ser, um estado de alma, uma paixão que dura 90 minutos e cresce no prolongamento, metia mais emoções do que linhas de passe. Um dia, os adversários de palestra trouxeram um vídeo para mostrar quanto Nelson inventava. Tendo ficado demonstrada, num caso de penálti, a imaginação do cronista, este pediu para repetir o vídeo. Repetiu-se. E Nelson rematou: "O vídeo é burro." Ora aí está, há questões que devem ser discutidas no seu tamanho, e só. Tentar falar delas no patamar acima, ou abaixo, é pedir que desça a alma de Nelson Rodrigues para se repor o bom senso. Um ministro das Finanças pediu para ver um jogo de futebol num camarote. O ministro e o clube do camarote varreram-se-me. Agora, magistrados do Ministério Público foram fazer buscas ao Mistério das Finanças. Segundo o jornal Expresso, "a Justiça quer perceber se há relação entre o pedido do presidente do Benfica (olha, o clube é o Benfica) para conseguir uma isenção fiscal para os filhos e a ida de Mário Centeno (olha, o ministro é Centeno) ao jogo Benfica e FC Porto, a que o ministro assistiu na bancada presidencial"... Sobre o assunto, cumpre-me dizer o que se segue. A Justiça quer perceber, diz o jornal; mas não pode, digo eu: a Justiça é burra. Isto é, é burra porque me quer convencer de que um ministro pede um bilhete de futebol a troco de um favor nas Finanças. Já, se calhar, não é burra se quer convencer os burros - e para isso a caixa de comentários o dirá sobre eventuais burros que haja por aí. A Justiça, não burra nesta última hipótese, lá saberá porque gosta de espalhar a suspeita. A ser assim, passa a certa justiça...

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