Derrota, humilhação, esperança

Ao serem excluídos da segunda volta das presidenciais francesas os candidatos dos partidos que governaram o país desde a instauração da V República pelo General De Gaulle, os franceses deram mais um contributo para o clima de incerteza política em que a Europa está a enredar-se. Mas não se pode colocar no mesmo patamar a derrota do centro direita e a derrota do Partido Socialista.

Ambos os candidatos derrotados, Fillon e Hamon, foram eleitos em primárias dos partidos a que pertencem.

François Fillon saiu derrotado mas não humilhado, e para a sua derrota terá contribuído mais o "escândalo" que o atingiu pessoalmente do que o projeto político que assumiu em representação da família política que o elegeu.

Humilhado foi o Partido Socialista pelo candidato que escolheu e que mergulhou o partido numa crise de tal gravidade que alguns dos seus notáveis, como Manuel Valls, defendem uma mudança da sua própria denominação.

Se é certo que o populismo vai ganhando espaço aos partidos tradicionais, a direita tem resistido à crise bem melhor do que os partidos sociais-democratas. Entre os partidários do centro esquerda vêm-se debatendo as causas do seu declínio. Para uns, a queda explica-se pelo compromisso ou mesmo pela cumplicidade dos partidos do centro esquerda com as receitas "neoliberais", com a desregulação financeira, o aumento das desigualdades, a erosão da classe média. Os que fazem este diagnóstico defendem, naturalmente, políticas de pendor socialista, ou seja, maior regulação do Estado, maior progressividade fiscal que atinja os mais ricos e redistribua com maior justiça a riqueza criada, políticas de apoio social aos desfavorecidos, ou mesmo, como defendeu Benoït Hamon, a criação de um rendimento universal para todos os franceses maiores de idade.

Este diagnóstico pode estar certo, o problema é que a terapêutica proposta não tem convencido os eleitorados. As derivas esquerdistas dos partidos sociais-democratas têm conduzido a péssimos resultados, como agora se viu em França, está a ver-se no Reino Unido com Jeremy Corbyn e aconteceu antes na Grécia e em Espanha.

O grande desafio que se coloca à esquerda é como compatibilizar a criação de riqueza e do emprego que lhe está associado à atenuação das desigualdades. Desafio ao qual a esquerda tem tido dificuldade em encontrar uma resposta convincente.

Se se põem entraves à circulação de capitais, se aumenta a tributação sobre a riqueza e os rendimentos mais altos, se elevam demasiado os custos da componente trabalho e se cria um ambiente desfavorável ao empreendedorismo, o resultado é o êxodo dos investidores e dos quadros mais qualificados, que encontrarão locais mais acolhedores para investir e trabalhar.

Em espaços económicos abertos, como é a União Europeia, os agentes económicos têm de competir e vencer, não há outra alternativa; e para competir têm de dispor de condições semelhantes, nos custos dos recursos humanos, financeiros, energéticos, nos encargos fiscais e outros semelhantes. Por outro lado, o Estado tem de proporcionar serviços que só ele pode prestar, como segurança, justiça e infraestruturas essenciais à produção de bens e serviços pelos privados, serviços que também devem ser prestados a custos competitivos.

A esquerda moderada, que compreende e respeita estas realidades, continuará a ter um papel positivo e acabará por sobreviver.

Os partidos socialistas que cedam ao radicalismo nunca serão tão convincentes como a extrema-esquerda e a extrema-direita a criar ilusões que são o caminho para o desastre.

Volto à eleição em França. A previsível vitória de Emmanuel Macron, um independente sem partido, oriundo da esquerda muito moderada, será, apesar de todas as incógnitas e divisões que afetam a França, um dos pilares da União Europeia, uma boa notícia para os que, à esquerda e à direita, acreditam na democracia, no Estado de direito e na economia de mercado como sustentáculos de uma sociedade mais justa.

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