2.ª vaga chegou. Estamos nos meses mais importantes das nossas vidas

Sabemos que a vacina está à vista. Talvez em janeiro, talvez um pouco mais tarde, mas estamos na antecâmara da solução para a pandemia. No entanto, para pouparmos a vida a muitos portugueses, precisamos de ultrapassar este outono-inverno. Só que parecemos cada vez mais divididos entre os que perderam totalmente o medo e os que querem manter-se em casa. E isso pode ser-nos absurdamente fatal.

Uma coisa sabemos: os números vão subir nos próximos dias/semanas. Porquê? A relação entre seres humanos e vírus não mudou radicalmente em 100 anos e, por exemplo, na pandemia de 1918, o outono trouxe números arrasadores. É que os vírus estão na Terra muito antes de nós, e cá ficarão depois dos humanos se extinguirem. Instalam-se onde os levarmos, invisíveis, e reacendem o contágio logo que as condições de frio ou fragilidade imunitária se acentuam.

Tal como agora, a primeira vaga da pneumónica (ou "gripe espanhola") ocorreu na primavera de 1918. Teve, tal como na primavera de 2020, um número de vítimas limitado. E nesse verão, tudo correu bem. Mas o vírus foi passando. Quando se chegou a setembro, os casos começaram a multiplicar-se. Outubro e novembro foram catastróficos.

Esta semana, exatamente por razões de investigação sobre a covid-19, estive no cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Um dos responsáveis da estrutura, Licínio Fidalgo, dava conta de uma data histórica: 25 de Outubro de 1918. Num só dia realizaram-se ali 59 funerais. Por coincidência, mais a Norte, em Espinho, nesse mesmo dia, morre com 30 anos o nosso "Picasso", Amadeo Souza-Cardoso.

Outro dado: durante a segunda vaga de 1918 terá morrido 1% da população portuguesa, ou seja, 60 mil pessoas. (Éramos bastante menos, na altura - menos de seis milhões.)

A gripe pneumónica tinha uma característica diferente da covid-19: era mais agressiva e gerava mortes mais rapidamente, mas esse efeito também diminuía o contágio porque as vítimas morriam e não continuavam a propagar. Pensa-se também que o período de contágio era menor (2 ou 3 dias), ao contrário deste coronavírus que, por ser mais moderado, demora mais a incubar e gera uma enorme quantidade de pessoas assintomáticas - portanto, contagiosas.

Quando, ontem, surgem 770 infetados, as campainhas soaram. Segundo alguns especialistas (o virologista Pedro Simas, por exemplo) Portugal consegue gerir até 50 casos por 100 mil habitantes. Na semana passada estávamos com 37. Esta semana é provável que estejamos já próximo dos 50. Ora, se continuarmos a subir muito, regressaremos ao Estado de Emergência?

Veja-se o caso de Israel (um sucesso, lembram-se?): atingiu 281 casos por 100 mil habitantes. O Governo não teve alternativa e forçou um confinamento de três semanas. Entretanto, ontem, Madrid começou a definir confinamentos seletivos de áreas da cidade. Só na capital espanhola morreram na quarta-feira mais de 60 pessoas (162 em toda a Espanha). França teve mais de 10 mil casos num dia. Alemanha e República Checa batem recordes de infetados.

Por cá, valha a verdade, os internados estão ainda abaixo dos 500 (480) e há 59 pessoas nos cuidados intensivos (UCI). Números ainda muito abaixo dos de Abril, em que tivemos 1302 internados e 271 doentes nas UCI.

Estamos atualmente com menos de 25% da capacidade hospitalar ocupada. Pensa-se que podemos aguentar o SNS com dois mil internados em enfermarias e 500 pessoas nos cuidados intensivos. Felizmente apenas 3% dos infetados tem precisado de hospitalização. O problema é que, se chegarmos a números-limite, é provável que nos encaminhemos para 50 óbitos diários (ou muito mais, se a pandemia chegar de novo a muitos lares). Nesse momento talvez o medo e a comoção geral possam provocar uma onda de choque e paralisação do país, ainda que o SNS continue a responder.

Por isso mesmo é de prever que o Governo volte a mexer com algumas normas de distanciamento social. Uma delas é a do uso de máscara obrigatório nos centros das grandes cidades e espaços públicos, como tem defendido o pneumologista da Ordem dos Médicos, Filipe Froes. Não necessariamente por causa da covid apenas, mas para evitar o reforço da propagação da gripe. Tudo indica que pessoas fragilizadas por síndromes gripais são mais suscetíveis a consequências pulmonares graves se contraírem a covid.

Por isso a medida-chave de todos este processo é a da testagem, sobretudo se os testes forem mais simples de executar. É verdade que ontem se bateu o recorde de testagem (23.289 pessoas) e talvez por isso tenhamos chegado aos 770 casos positivos. Sim: mais testes trazem "maus resultados", mas é aqui que o Governo tem de insistir. Aliás, disseminar testes que se executam através da saliva é crucial. Com essa tecnologia poderíamos chamar ao combate à pandemia as empresas já que, por essa via, os testes não dependeriam tanto de profissionais de saúde, filas de espera nos laboratórios e quarentenas inúteis.

Finalmente, o Governo devia aconselhar as empresas (que tenham tesouraria disponível) a pagar já os subsídios de Natal. Dessa forma as pessoas poderiam fazer as compras de final de ano atempadamente. Novembro e dezembro correm o risco de serem meses absolutamente para esquecer e, assim, cada pessoa poderia ir contribuindo para manter o comércio e a economia a funcionar.

Só gerindo a pandemia com inteligência e antecipação evitaremos o naufrágio económico português neste Inverno. A ameaça é, de novo, muito real. E só coletivamente o podemos fazer. Porque nunca a expressão "estamos todos no mesmo barco" foi tão verdadeira.

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