Sentir direito

Não sou psicólogo e académico tão pouco, mas a vida levou-me a debruçar-me sobre este tema e depois de alguns meses de estudo, pude comprovar teoricamente aquilo que a prática da Advocacia já me fazia crer. A inteligência emocional é uma ferramenta essencial para o sucesso na vida profissional e, no que a nós aqui importa, para a boa prestação de um Advogado.

Muitos de nós somos diariamente forçados a reconhecer que fulano A ou B é "muito inteligente", e ouvimo-lo muitas vezes dos outros (principalmente se lidamos frequentemente com gente mais humilde) não sendo isso que se passa num meio como a Advocacia, composto maioritariamente por egos bastante inflamados. E quando geralmente o dizem, referem-se às capacidades cognitivas dessas pessoas, ao seu pensamento e desenvolvimento do seu raciocínio ou da sua memória.

Essa é, porém, apenas uma parte - ou se quisermos um prisma - da inteligência, a denominada standard. Mas outra existe, tendo sido há muito reconhecida na literatura como um subtipo da inteligência social, que envolve a capacidade de compreender pensar sobre as emoções (em nós e nos outros), de avaliá-las e usar essa informação como guia do pensamento e do comportamento, de exprimir as emoções adequadamente e de regulá-las em função dos vários ambientes de modo a motivar, planear e atingir certos objetivos ou resolver problemas. Ser evoluído na primeira, não significa sê-lo na segunda. Pelo contrário, muitos "génios", com elevadas capacidades cognitivas, são um desastre em matéria de inteligência emocional. E se para um cientista ou um professor de matemática, não a ter não lhe causará grande mossa para o sucesso no seu trabalho e desempenho, já o mesmo não podemos dizer relativamente aos Advogados - e em especial aos Advogados de Tribunal e a todos quanto prestem apoio jurídico em processos de natureza pessoal - cuja principal função é resolver os problemas de pessoas que gravitam frequentemente em seu torno e as mais das vezes, através do contacto e interação com outras.

A inteligência emocional está correlacionada com a empatia (a qualidade que provoca reações positivas nos outros e sem a qual resulta o oposto) e que esta é uma característica dominante no comportamento emocionalmente inteligente. É também consabido que as emoções no discurso alavancam o seu impacto e a eficácia da persuasão. Por outro lado, a postura e a linguagem corporal - muito mais genuína do que as palavras, porque mais difícil de controlar - assumem particular relevo na comunicação e na transmissão adequada das emoções.

Ora, se estas verdades, que não são minhas, são inquestionáveis e estão pacificamente assentes, e se admitimos que a inteligência emocional é uma ferramenta tão ou mais útil que as capacidades cognitivas, por que razão então as nossas faculdades de direito insistem em continuar a focar-se única e exclusivamente na formação dos seus alunos (uma grande parte, aspirantes a Advogados) através apenas do conhecimento e do desenvolvimento do raciocínio? E se é verdade que, ainda assim, temos nas faculdades de direito muitos estudantes que não querem necessariamente ser Advogados, podendo porventura (tentar) com isso justificar-se o foco exclusivo na mera aprendizagem do Direito, menos se compreende que numa Ordem dos Advogados o mesmo se repete, com menor desculpa ainda, tendo essa mesma Instituição como um dos propósitos centrais formar futuros Advogados durante um longo estágio no qual se ensinam as importantes práticas processuais e deontologia profissional - num estilo um pouco arcaicos, diga-se - desconsiderando-se em absoluto o estimulo de qualidades inerentes à inteligência emocional tão valiosas para o exercício da Advocacia que todos os candidatos almejam seguir.

São ensinados a chamar os seus pares por "Mui Ilustre Colega" e a dirigirem-se aos Senhores Magistrados com vocativos de seis sílabas. Contudo, muitos dali saem sem aptidão para olhar um Juiz de frente e nos olhos, sem qualquer pista quanto à postura que devem adotar numa audiência de julgamento e sem a mínima formação de cariz psicológico e social ou sobre como abordar ou lidar pessoalmente com os problemas dos outros, seus futuros e putativos clientes. E a culpa não é da Ordem, mas da cultura enraizada no meio da Advocacia! Pondo de lado a Advocacia de negócios, quantas vezes o especialista em direito da família, criminal ou sucessões, não se viu na contingência de estar reunido com clientes desempenhando vários papeis menos o de Advogado? Quem nunca deu por si perante um cliente a fazer de psicólogo, de melhor amigo ou até de "padre", que atire o primeiro código! Mesmo sem ter de ir ao extremo, sabemos que precisar de um Advogado não costuma ser bom sinal. E muitos assuntos delicados de clientes carecem de uma assistência particular, de um acompanhamento próprio, de um contacto mais humano e de uma sensibilidade acentuada. É que, para além de resultados, muitos clientes precisam de uma pessoa que os saiba ouvir, que se importe, que lhes dê conforto e resposta adequada às suas emoções, e não apenas de um técnico em direito.

Ora, se a principal (e nobre) função do Advogado é dar apoio e resolver os problemas das pessoas que o procura - muitas vezes para isso tendo que convencer outras e com elas interagindo pessoalmente - não se compreende que a nossa cultura, desde as faculdades de direito até à Ordem, esteja apenas direcionada para a formação académica e para o raciocínio e rejeite o campo valioso e útil das emoções, como se estivéssemos a falar de algo que nos é estranho e não fizesse parte de todos nós.

Não admira, pois, que a classe dos Advogados ou operacionais do Direito seja vista pela sociedade como composta maioritariamente por pessoas mais cinzentas, arrogantes e com poucas habilidades sociais. É certo que a nossa Ordem incumbe, e bem, os seus candidatos, do dever de fazerem durante o estágio, uma dúzia de "intervenções" no Tribunal em processos judiciais junto dos seus Colegas mais velhos, tal como prevê a obrigação de cada um deles terem um "patrono" nomeado com a função de zelar pela sua formação.

Acontece que, quanto ao primeiro aspeto, muitas dessas "intervenções" acabam por se traduzir na mera comparência muda numa sala de audiências. E ainda que se diga que sempre têm assim a oportunidade de assistir às intervenções - essas reais - de vários Advogados experientes, a verdade é que também eles foram formados na rejeição liminar das emoções e muitos sem qualquer treino em matéria de interação humana, psicológica ou social. E o mesmo se diga relativamente à maioria dos Professores das faculdades de direito, que ainda enquanto estudantes brilhantes e finalistas do curso, são convidados (pelas suas invulgares capacidades cognitivas) a juntarem-se à prestigiante academia de docentes. Já quanto ao segundo aspeto, não obstante a existência de um "patrono", quantos não são os candidatos à Advocacia de norte a sul do País a terem o infortúnio de fazerem estágios meramente "formais" e apenas no papel, ou cujos patronos, em virtude do ritmo acelerado do seu dia-a-dia, não têm tempo ou paciência para os acompanhar ou dar-lhes orientação. E não falo por mim que tive a sorte de beneficiar do oposto.

No fundo, trata-se de um defeito de base da nossa cultura. E a critica não é gratuita. Há solução e a mesma deverá passar por uma mudança ou ligeiro alargamento dos programas de ensino para além do QI. E logo nas universidades. Nunca é tarde. E já é tempo.

Advogado de Contencioso Penal da PLMJ com Pós-graduação em Psicologia Forense e Criminal das Nações Unidas

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