Os partidos adoram a palavra "cultura". Mas não sabem o que fazer com ela

A desinformação pode ser propagada nas redes sociais, mas começa logo nos programas eleitorais para estas legislativas. Investir na cultura não é isto.

Diz o PSD que, na cultura, "somos o que fomos e o que ambicionamos ser"; a cultura tem de estar "onde se quer e menos se espera", afirma o CDS. O PS quer "renovar a aposta na cultura", a CDU requer a existência de um Ministério da Cultura "digno desse nome", o Bloco de Esquerda quer mais políticas públicas e o PAN não quer tratar a cultura como "causa de poucos".

Em contexto académico, há uma frase que se torna num mandamento logo nas primeiras aulas de jornalismo: "Show, don"t tell" (mostra o que fazes ou como vais fazer, não digas apenas que vais fazer). E estas deveriam ter sido também premissas dos partidos políticos (e dos seus consultores) para a construção dos programas eleitorais no que respeita a realidades apenas aparentemente simples, como as da cultura.

Investir na cultura não pode passar por frases feitas nem por medidas de rama, como criar mais museus, mais espetáculos ou mais qualquer coisa que seja. Parece que não queremos sair da morna cultura, tapando os problemas com a palavra "mais". Por outro lado, um programa eleitoral tem de lidar com premissas e algumas, poucas, resoluções preliminares. Mas prometer que se vai fazer "muito mais" para agradar a todos os tipos de públicos também não me parece exequível.

Quais são os desafios que enfrentamos atualmente no campo cultural? Não são, certamente, aqueles de há 20 anos ou mesmo de há cinco. Comecemos pela sua definição. Desde finais do século XIX que a cultura é muito mais do que o cultivo intelectual das artes. Inclui as expressões das comunidades, os rituais do quotidiano e as vozes das subculturas. Estende-se às indústrias culturais, em particular aos media, responsáveis pelos conteúdos simbólicos que orientam as nossas vidas. Relaciona-se com os avanços e os recuos, as potencialidades e os riscos de uma cultura digital; exige esforços para proteger e promover as classes criativas, nas indústrias criativas, que geralmente estão localizadas em cidades, também elas devendo ser criativas e sustentáveis.

Em Portugal e na Europa, há ainda dois outros desafios a ter em conta: a a literacia cultural, que vai muito além de inserir práticas artísticas nas escolas (não subvalorizando a sua importância), e a cultura com consciência social. Em relação à primeira, esta é hoje essencial para compreendermos os fenómenos sociais e culturais que caracterizam o mundo, desde as notícias falsas, a crise dos refugiados, aos fenómenos migratórios e à convivência com o outro. Mas é também ter a capacidade de ter uma visão interdisciplinar para poder cruzar saberes e inovar nesta área.

Por seu lado, já foi amplamente estudado o contributo que a cultura pode dar para fins sociais, trabalhando em prol de grupos minoritários, classes desfavorecidas ou comunidades de risco. E aqui também é preciso desenvolver mecanismos de inovação na produção e receção.

Em vez de proporem apenas criar mais linhas de financiamento, deveriam mostrar como poderão inovar nos mecanismos de avaliação do retorno social (não só económico) dos equipamentos e projetos culturais, para alocar o dinheiro ao mérito.

Recuperando a célebre definição do economista oitocentista Joseph Schumpeter, inovar não é necessariamente criar algo novo, mas sim encontrar novas combinações para realidades, estruturas e mercados já existentes.

Nesta lógica, em vez de proporem criar "mais" museus ou outras estruturas culturais indiferenciadamente, os partidos políticos em jogo no próximo dia 6 de outubro deveriam mostrar medidas para inovar nas existentes, inovação essa que passa sobretudo pela transformação digital, de forma a captar os não públicos da cultura.

Em vez de proporem apenas criar mais linhas de financiamento, deveriam mostrar como poderão inovar nos mecanismos de avaliação do retorno social (não só económico) dos equipamentos e projetos culturais, para alocar o dinheiro ao mérito. Há exceções, e o aumento do orçamento do Estado para a Cultura é essencial, como defendem alguns, mas é preciso inovar na sua distribuição. Paralelamente, além de defenderem as condições dos trabalhadores culturais e criativos, deveriam dotá-los de competências digitais e de gestão que lhes permitam procurar outras formas de financiamento para além do Estado, comunicar melhor os seus projetos culturais e envolver de forma mais eficiente os públicos.

Por último, em vez de se focarem no apoio à criação artística, os candidatos deveriam diversificar e incluir neste bolo precisamente projetos de literacia cultural e inovação cultural quer do ponto de vista da produção quer da receção e distribuição.

Investir na cultura é isto: aceitar a sua intangibilidade, mas tratá-la como uma necessidade da vida informada, em comunidade e em democracia.

Docente da NOVA FCSH - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa

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