Democracia e Inclusão

Lembro-me de ter estado na ilha de Java e de os taxistas me perguntarem recorrentemente se já estivera ou se iria a Bali, referindo-se a esta ilha como "o paraíso", ou a pulau dewata (a ilha dos deuses).

Desde a primeira metade do século XX, a mística de Bali foi sendo transmitida para a Europa e a América através de artistas estrangeiros radicados em Bali, antropólogos e estrelas do cinema. Uma visita a um museu de arte contemporânea bastará, não apenas para ver obras de estes artistas, mas também obras de artistas nativos, onde representações de cenas das ricas tradições de Bali se misturam com turistas ocidentais com máquinas fotográficas curiosas.

Creio que é este o segredo da mística de Bali. Num mundo onde há uma separação cada vez maior entre espaços urbanos e globalizados e os espaços rurais tradicionais, Bali é um dos talvez não muitos locais que possui ambos, onde podemos encontrar lado a lado um templo hindu antigo entre vegetação tropical e um Starbucks.

Visitei Bali em dezembro de 2019 no seguimento de um convite por parte da Embaixada da Indonésia em Portugal para participar numa conferência de estudantes promovida pelo governo indonésio e subordinada ao tema "Democracia e Inclusão". Ao longo dos dois dias da conferência, onde também estiveram presentes figuras importantes da política indonésia como a Ministra dos Negócios Estrangeiros Retno Marsudi, além dos dois temas do título, os principais temas discutidos por estudantes de praticamente todos os cantos do mundo foram a participação feminina na política e o papel político das novas tecnologias da informação e comunicação.

A conferência em si, juntando representantes de vários países e servindo essencialmente propósitos diplomáticos, adotou uma linguagem comum e tendencialmente simples, provavelmente a linguagem e as ideias a que um cidadão português se habitua desde cedo na escola pública. Porém, do ponto de vista informal, uma experiência como esta proporciona outra mais vasta e não menos importante do que a formal: o contacto próximo com estudantes de quase todo o mundo, desde outros países da Europa, da América Latina, do Norte de África, da África Subsariana, do Médio Oriente, da Ásia Central, do Sueste Asiático, da Oceânia, e de outras áreas geográficas ou culturais mais ou menos artificiais. Refira-se também o contacto com pessoas das mais variadas regiões da Indonésia, como Java e Bali, os centros político-administrativos e turísticos, respetivamente, mas também das ilhas Molucas e os distantes e por vezes conflituosos Papua e Aceh, de onde era o meu colega de quarto, com quem tive oportunidade falar sobre os conflitos políticos com o centro, a tradição islâmica nesta região, considerada mais conservadora do que no resto da nação, e os efeitos do tsunami de Sumatra de 2004.

Este tipo de contacto, permitiu-me aprofundar o conhecimento sobre regiões da Indonésia e do mundo que não têm expressão cultural no nosso país, pois rapidamente chegamos à conclusão que a maior parte destas notícias se debruçam quase exclusivamente sobre catástrofes naturais ou tragédias humanas.

Felizmente, esta experiência permitiu-me tirar de novo uma conclusão que já pude tirar mais algumas vezes e que, não querendo parecer indulgente, posso generalizar a qualquer jovem habitante do Portugal contemporâneo: a ideia de que a educação aproxima os seres humanos e permite que eles se entendam e consigam dialogar de modo lógico e harmonioso, independentemente da origem geográfica, étnica, económica ou religiosa. Este, creio eu, é o grande desafio e apelo que eu faço aos meus pares, restando-me desejar que a uma vontade de aprender e conhecer se alie a oportunidade física e financeira para tal demanda. Por vezes, é preciso desligarmos a televisão e o computador e irmos conhecer as pessoas e as culturas, não só para descobrirmos quem somos, mas para nunca nos esquecermos daquilo em que nos tornámos.

Representante português na III Bali Democracy Students Conference, Nusa Dua

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