Crises e tempestades na costa oeste da Europa

O economista e antigo Ministro das Finanças escreve sobre as dificuldades económicas que o país atravessa, na sequência do artigo do FT: "As reformas portuguesas não foram suficientes para assegurar solidez financeira" (leia aqui)

Como compreender a conjuntura da economia portuguesa? Além de vozes domésticas que têm alertado para o fim de verão, Tony Barber, editor do Financial Times, usa a imagem da "tempestade perfeita" na edição de 7 de Setembro para descrever "uma economia em quase estagnação, com investimento e competitividade em queda, défices orçamentais persistentes e uma banca subcapitalizada detentora de uma dívida pública astronómica" e, em 29 de Agosto, um artigo da prestigiada coluna Lex do mesmo jornal intitulada "CGD state paid" denunciava o malabarismo da recapitalização sem ajuda do Estado. Será exagero da imprensa, dos mercados ou de ambos?

Para responder, ocorre-me citar dois economistas defuntos que educaram quem me educou, Paul Samuelson e Rudi Dornbusch. O primeiro (que mereceu uma crítica marxista intitulada Anti-Samuelson) dizia com ironia que os peritos dos mercados tinham previsto sete das três últimas recessões ao passo que o segundo (que nos ajudou a lidar com o FMI há quarenta anos), avisava que a crise chega sempre mais tarde mas mais depressa do que se pensa. Vale por isso a pena avisar com moderação sobre as turbulências financeiras mas apertar os cintos. Foi precisamente isso que não aconteceu nos últimos nove meses: a política é reverter as reformas que abriram a economia durante o período de ajustamento em vez de as aperfeiçoar; a comunicação é repetir à saciedade que a crise não mora aqui, na esperança de que Portugal seja "um oásis no incerto" como, inspirando-me em Fernando Pessoa, julguei ser possível e assim disse ao saudoso Mário Bettencourt Resendes há quase 25 anos.

Estou por isso à vontade para salientar a incerteza da envolvente internacional então e agora. Mas neste momento temos a política mais taticista de que há memória e por isso de pouco nos vale mais ou menos incerteza externa.

Dentro da conjuntura medíocre o mais grave é certamente que, como gosto de dizer, "a banca fecha a economia". Segundo um relatório recente da Agência Bancária Europeia com base numa amostra de 166 bancos europeus, entre nós os nacionais apresentam uma percentagem de créditos de cobrança duvidosa que é cerca do dobro dos estrangeiros que cá operam, cerca de 10%. Esta situação também se verifica na Itália e na Irlanda mas não na Espanha em que não há diferença. Esta fragilidade mantém o ciclo vicioso que quase nos levou à bancarrota em 2011 e por isso não se pode excluir uma repetição.

A incerteza da economia mundial agrava a situação porque pode não haver consenso para repetir o mecanismo institucional da troika que foi recentemente avaliado pelo Gabinete Independente de Avaliação do FMI como tendo sido um sucesso na Irlanda um falhanço na Grécia, estando Portugal algures no meio. Em paralelo um livro da equipa que acompanha Portugal salienta que as reformas ficaram a meio.

Estando a meio, estaremos a tempo de arrepiar caminho? Como diria Dornbusch quando soubermos será tarde demais, ou valendo-me da sabedoria popular, mais vale prevenir que remediar!

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