A ficção científica está mesmo a tornar-se realidade

Como os autores de ficção científica estão a ser contratados por preverem os mundos futuros.

A capacidade de prever o inexistente é incrível. Mas conseguir mostrá-lo antes de ele existir é extraordinário de tão inacreditável que possa parecer! Esta capacidade está apenas ao nível dos que trabalham como criadores, como os designers, os arquitetos ou os guionistas. Falo da capacidade da antevisão de objetos, espaços, relações homem-máquina e comportamentos. Falo da capacidade de conseguir prever como as nossas vidas vão mudar através da construção de uma imagética de um mundo não existente, mas já muito presente.

Não se especula de como somos poluentes, ou de como estamos a destruir o planeta. Fala-se da de como aplicar técnicas adivinhatórias, mas estas, não são as que não lemos no horóscopo! Não nos falam de saúde e de amor, mas sim de uma vida futura. Falam-nos de mundo especulativos. Mundos de amanhã que são de uma quase tangibilidade hoje.

Grandes marcas como a Nike, a Ford ou a Boeing estão a recrutar guionistas de ficção científica para preverem o seu futuro. Imagine-se! Escrever guiões, não para Hollywood, mas sim para marcas, empresas e pessoas.

Em 2017, a PwC, publicou um modelo baseado na utilização da ficção científica para explorar novas áreas de inovação. No mesmo ano, a Harvard Business Review argumentou que "os líderes empresariais precisam ler mais ficção científica" para se manterem à frente no seu tempo. Eric Schmidt, CEO da Google, afirmou até que "a ficção científica está a tornar-se realidade."

E está mesmo! Veja-se os exemplos dos objetos antecipados na saga Star Trek. Os communicators, que até uma antena que rodava tinham no topo, anteciparam os telemóveis. O Giordi Visor foi o grande antecessor dos olhos biónicos que os cientistas de Stanford ajudaram a pôr no mundo. As vídeo-conferências em flat screens, que hoje tanto nos ocupam tempo em reuniões à distância, foram também elas inventadas, ou tão somente sugeridas, pelos guionistas da saga.

O tricorder, o fantástico device que lia as debilidades médicas da tripulação do Captain Kirk, está ao nosso alcance desde que a NASA através do seu LOCAD, um aparelho em tudo muito semelhante ao tricorder, controla a presença de e-coli e salmonela na tripulação da Estação Internacional Espacial. Veja-se também o PADD (Personal Access Display Device), muito usado por Spock, primeiro oficial da ESS Enterprise, um objeto em tudo semelhante a uma das grandes criações da Apple: o iPad.

O cinema está repleto destas previsões que, mais cedo ou mais tarde acabam por se transformar em realidades.

Veja-se por exemplo este novo Blade Runner que não nos dá objetos mas dá-nos cenários especulativos que questionam a humanidade tecnológica, a dimensão do objeto vivo e o nosso próprio futuro. Por oposição já os ambientes tecnológicos de Minority Report, filme de 2002 de Spielberg, deram o mote a uma série de inovações tecnológicas.

Os exemplos são demasiados para não acreditar que de facto ter criadores de ficção científica a trabalhar no futuro de grandes marcas, ou pelo menos, na antevisão dele, pode ser muito vantajoso.

Os resultados podem ser surpreendentes. Tomando como exemplo a construção do mundo da Ford, este resultou na especulação sobre uma "City of Tomorrow". Esta cidade imaginada, inventada, dá-nos um cenário, dá-nos objetos vivos que questionam e anteveem o nosso futuro. Esta cidade Ford, foi construída com a ideia de que as pessoas "reclamavam para si as ruas" livres de trânsito e de acidentes, mas repletas de carros inteligentes e veículos de autónomos. Esta cidade atira-nos para um futuro que é já ali e ao mesmo tempo parece difícil de alcançar, ou até mesmo de acreditar.

Mas eu acredito.

Acredito de uma forma ridiculamente exagerada, que os criadores como designers, arquitetos e guionistas podem mudar o mundo, dizendo e mostrando hoje como ele vai ser no amanhã.

*Designer/ Director do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

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