O desencanto

A proximidade das múltiplas eleições que vão realizar-se na União Europeia começa a deixar evidenciar que serão marcadas pelo que podemos chamar um desencanto em relação às visões dos que sonharam e iniciaram a organização. Recentemente, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, do Vaticano, em entrevista ao Expresso, sugeriu: "Pense-se no que eram os políticos do pós-guerra (Robert) Schuman, (Alcide) De Gasperi, (Honrad) Adenauer... E o que era também o projeto da Europa, como foi concebido, a sensibilidade que havia; mesmo os políticos menores tinham qualidade de preparação..."

O primeiro grande alarme, chamando a atenção dos povos e dos estadistas ocidentais para a urgência e também para as dificuldades que enfrentariam, ficou a dever-se ao discurso de Winston Churchill, o maior líder da Guerra de 1939-1945, perdedor das eleições nacionais depois da vitória, mas solicitado para despertar, com o seu excecional poder da palavra, os responsáveis e os povos ocidentais: foi no Westminster College, em Fulton, Missouri, que, prestando embora prévia homenagem à participação da Rússia na guerra, proclamou: "De Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático, desceu uma cortina de ferro através do continente. Por detrás dessa linha encontram-se todas as capitais dos Estados históricos da Europa Central e do Leste: Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sófia; todas estas famosas cidades e populações à sua volta estão agora no que chamo a esfera soviética..."

A política das metades que deram forma à nova circunstância (duas Europas, duas Alemanhas, duas cidades de Berlim) não impediu a preservação da solidariedade do Atlântico nem a união da metade europeia democrática. Todavia, a evolução de meio século, com acaloradas discussões entre os envolvidos, faz relembrar, neste 2019 de eleições, este comentário do conservador Benjamin Disraeli,conde de Beaconsfield (1804-81): "Não podemos enganar-nos porque estudamos o passado e é bem conhecida a nossa capacidade de revelar o futuro quando este já ocorreu." Nem os homens, nem os povos, nem as instituições podem evitar o desafio da mudança da circunstância que enfrentam, e esta época parece marcada, em relação ao projeto da União, pelo desencanto.

Não se trata dos avanços da ciência e da técnica e dos benefícios conseguidos: trata-se dos desvios, do facto de mais de metade dos países membros da ONU não terem sequer capacidade de responder aos desafios da natureza, da desigualdade da repartição dos benefícios, de os valores do "mercado" silenciarem os valores jurídicos e éticos proclamados para a nova sonhada ordem mundial, de esta ordem mundial estar desafiada pela já visível nova disputa entre as chamadas potências emergentes e da própria destruição do globo estar ao alcance das capacidades militares: e também à desatenção assumida quando o igual resultado está a ser progressivamente implantado pela atitude irresponsável dos mais poderosos no que toca ao ambiente, com a juventude, incluindo a de menor idade, a clamar contra a culpa dos responsáveis pela falta de uma governança global eticamente condicionada, os impedir de vir a usufruir "a felicidade de estar vivo".

Infelizmente, os países que foram responsáveis pela ocidentalização do mundo são confrontados com a memória que esse mundo tem dos abusos que também sofreu, e mostra fatores de retaliação inquietantes. Com os EUA, indispensáveis como foram para resolver as crises das duas guerras mundiais, a fragilizar a solidariedade atlântica pelo governo populista que mostra regressar ao conceito do Pacífico como destino manifesto; a sua preferência pela ação solitária pondo de lado a evidente necessidade do método da cooperação; com a União Europeia incapaz de introduzir racionalidade no Brexit do Reino Unido, ou de assumir que a luta da meia Europa do leste foi pela soberania contra o domínio soviético e não pela igualdade democrática em cooperação com a meia Europa ocidental, o que tem expressão no panorama da circunstância eleitoral.

Para lá da crise das migrações, o facto de as debilidades da governança mundial terem como que fortalecido a sombra de um diretório franco-alemão, a desordem interna francesa e o enfraquecimento da chanceler alemã, tudo implica que o principal desafio das eleições é o desencanto que tem fortalecido as abstenções, e de novo lembra o comentário de Disraeli, porque este futuro aconteceu enquanto as discussões continuavam sem conclusões. O tempo que as eleições vão consumir na construção de imagens e êxitos, ainda que reais, dificilmente conseguirão a mudança fiável, esperada e exigível, da circunstância emergente que os excedeu.

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