As fraturas do mundo único

A utopia da ONU, no sentido mais animador da expressão, que admite referir uma ordem possível na Terra, e não apenas um sonho para um lugar inexistente, defronta-se com fraturas inquietantes que ameaçam o sonho do "mundo único" dos fundadores. O mais recente alarme é o que diz respeito ao próprio orçamento da instituição, que pode afetar não apenas a sustentabilidade das ações em curso ou projetadas, mas, e isso mais gravemente, o espírito com fé nos projetos e esperança nos resultados, que animam historicamente os servidores.

As fraturas no "mundo único" serão agravadas pelo enfraquecimento das capacidades do instrumento em que os responsáveis pela paz que se seguiu ao fim da guerra de 1939-1945 colocaram as suas esperanças, projetos e perdões. Mas parece que a história do percurso andado até às dificuldades financeiras do presente se refletem na atitude das populações dos Estados membros, por um lado no "tédio" que dinamiza as abstenções dos eleitorados ocidentais, por outro na multiplicação dos partidos que intervêm sem unidade de um conceito estratégico estadual, de um conceito estratégico regional e de um conceito estratégico global, articulados pelo utópico princípio originário de um mundo único, que observadores desiludidos já admitem ter chegado ao ponto de esgotamento.

Pelo que respeita à ONU, a falha original esteve talvez no desrespeito da igual dignidade dos Estados, que se traduziu na aristocratização das potências pelo direito de veto, fortalecendo o erro de as levar a imaginar que "uma potência" poderia enfrentar e definir isolada o seu futuro e dos outros, encaminhando para o esquecimento de que nenhum Estado dos existentes tem capacidade para enfrentar os desafios que vão do ambientalismo à paz, e ao desenvolvimento sustentado que é também o nome da paz. Este erro desencadeou tentativas de remédio pelo que foi chamado "diplomacia de clube", que fez surgir centros de poder por vezes não cobertos pela legalidade, ou cobertos pela inidentidade, crescendo as perigosas evidências que levaram Fréderic Cherilou a falar de uma estratégia de turbilhões, pontuada pelas migrações descontroladas com um passivo de desastres humanos aterrador, e com o renascimento dos mitos raciais que a UNESCO tentou eliminar e que agora foram acrescidos da islamofobia.

É difícil responder à questão de saber se as chamadas "potências" emergentes mudam a ordem mundial ou têm de a reinventar, justamente porque é problemático concluir que existe ainda uma ordem mundial. Os valores e princípios que, evoluindo no tempo, a constituíram, foram de origem ocidental, com predomínio europeu, o que não representa apenas uma teoria de abusos como alguns pretendem: mas esta Europa, que já foi a "luz do mundo", está a descurar a sua própria unidade e a enfraquecer a sua estrutura. Todavia, ainda tem recursos para que novas vozes encantatórias, como foram as que conduziram à União, respondam com nova inspiração para que seja um centro dinamizador da recuperação da Utopia do Mundo Único.

A visita do corajoso Papa Francisco a Hiroxima e Nagasáqui não tem significado apenas no que toca à lembrança, e religioso respeito, ao sacrifício das inocentes vítimas do pavoroso bombardeamento atómico, mas também o de aviso para o agravamento da desordem mundial, na qual a leviandade agravou o panorama dos riscos para a paz.

Já foi lembrado que o passado está constantemente a surpreender pela mudança de imagem ao longo do tempo que passa, mas a falta de desígnio articulado pelas potências fez que o futuro frequentemente aconteça sem que qualquer decisão tenha recompensado a corrente de reuniões entre os responsáveis políticos.

Espera-se melhor resultado da iniciativa que o Papa Francisco teve, em vista do reflexo na valoração do desafio global do desastre que cresce na Amazónia, esperando da reunião convocada dos bispos dos países que têm responsabilidades na área dividida pelas respetivas soberanias lutar por chegar a propostas exequíveis que tenham como valor dominante a vida dos nativos que não têm poder sobre a preservação do património que era seu por imperativo da justiça natural. A decisão final pertence ao Papa Francisco, com uma vida sacerdotal que enriqueceu o seu conhecimento não apenas da história, mas da realidade do continente americano. A agitação doutrinal que rodeia a sua iniciativa espera-se que não afete a urgência de impedir que a história da ocidentalização do continente fique marcada por mais um desastre humano.

Talvez seja altura de lembrar a tragédia dos iroqueses, quando os sobreviventes à expropriação da terra pelas novas soberanias, e recordando a tragédia vivida, se dirigiram ao presidente dos EUA, perguntando se também lhes era necessário morrer. A rigorosa crónica de Tocqueville poderá encaminhar todas as intervenções no processo para admitir que são direitos humanos que estão antes de outras opções.

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