E depois do caça israelita abatido?

O derrube de um caça israelita é tão raro que pode significar que algo de decisivo está prestes a começar no Médio Oriente, agora que a guerra civil síria, nos moldes tradicionais, quase terminou, com a vitória do regime de Assad sobre as diversas rebeliões. As alianças na região, sempre voláteis, têm estado a mudar e se o choque entre o campo xiita, liderado pelo Irão, e o campo sunita, encabeçado pela Arábia Saudita, há muito se tornou evidente na Síria ou no Iémen, não será de admirar se o Estado Judaico se intrometer de certa forma nesta luta entre blocos islâmicos. E conhecendo o pensamento do primeiro-ministro Netanyahu, quase há uma década no poder, é o Irão que é hoje visto como a grande ameaça à segurança de Israel.

O que se sabe do incidente de ontem é que o avião foi atingido por tiros de antiaérea ainda sobre território sírio, quando participava numa operação militar destinada a punir a violação do espaço aéreo por um drone iraniano (versão israelita, que Teerão desmente). O aparelho caiu já em Israel, tendo ambos os pilotos conseguido ejetar-se. O Hezbollah, movimento xiita libanês apoiado pelo Irão, fala enigmaticamente de "uma nova fase" depois do derrube do aparelho israelita. O grupo, que tem sido um dos grandes aliados de Assad, derrubou em 2006 um helicóptero durante uma curta guerra entre o Estado Judaico e o Líbano, aquela que tinha sido a última perda de uma aeronave israelita até aos acontecimentos das últimas horas.

Com os Estados Unidos, desde que Trump ganhou a presidência, a alinharem com Israel nas duras críticas ao Irão, pondo até em causa o acordo nuclear negociado na era Obama, Netanyahu não terá em Washington um travão a uma eventual ofensiva que impeça o regime dos ayatollahs de instalar bases na Síria. Aliás, mesmo a Arábia Saudita, sobretudo depois da visita de Trump a Riade, sente ter luz verde americana para acentuar a sua campanha de contraponto ao Irão, neste caso em especial no Iémen. O que significa que o papel de moderador nesta escalada recai sobre uma Rússia que tem também interesses a defender no Médio Oriente, caso da própria sobrevivência do regime de Damasco, salvo tanto pelos seus aviões como pelas milícias xiitas enviadas pelo Irão.

Netanyahu tem uma boa relação pessoal com Putin, e russos e israelitas têm cooperado com sucesso para evitar mal-entendidos na Síria. O presidente russo já apelou à moderação depois do que aconteceu ontem, mas mesmo para ele não será tarefa fácil preservar Assad, manter a aliança tácita com o Irão contra rebeldes sunitas e Daesh e salvaguardar o tradicional bom entendimento com Israel.

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Anselmo Borges

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1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.