O cavalheiro monoglota

Sempre que entrava na cafetaria e não havia lugar para me sentar, uma mão aparecia logo no ar, a arranjar um espaço para mim. Era o David." É assim que Ana Gomes, ex-eurodeputada socialista e ex-candidata à Presidência, recorda David Sassoli em Bruxelas, antes de este encabeçar o Parlamento Europeu, como colega de bancada. Elisa Ferreira, atual comissária portuguesa e também ex-deputada europeia, lembra-o como "autêntico e risonho, mas bastante determinado". "Tinha essas duas valências: determinação e bom senso. E uma enorme capacidade de diálogo", lembra. "Exprimia-se sempre em italiano, mas expressava-se como um jornalista", sorri, sobre o político monoglota que havia sido repórter e pivô televisivo antes de ingressar no então criado Partido Democrata italiano, em 2007. Carlos Zorrinho, seu amigo pessoal desde que ambos encabeçaram as delegações dos partidos irmãos no grupo dos SD, enaltece a personalidade "afável e extraordinariamente inteligente", assim como "o papel reforçado que o Parlamento Europeu ganhou durante a pandemia, graças a ele".

David-Maria Sassoli, nascido em Florença em 1956, casado com uma arquiteta e pai de dois filhos, faleceu ontem, aos 65 anos de idade. Na comunicação social italiana e na política europeia, a partida precoce provocou consternação. A sua vida profissional foi feita no jornalismo local até chegar aos diários de Roma. Daí passou para o pequeno ecrã, onde desempenhou funções de correspondente e diretor adjunto em estações nacionais de informação. A televisão conferiu-lhe uma notoriedade que fez dele célebre - e próspero - em Itália. A sua carreira prolongou-se por três décadas.

Em 2009, seria eleito eurodeputado pela primeira vez, como cabeça-de-lista do centro-esquerda italiano. Em 2012, seria candidato à câmara municipal romana, mas sem sucesso. Tornar-se-ia um dos maiores apoiantes de Renzi, perdendo espaço no partido após a sua saída. Em 2019, depois de o Conselho descartar o método Spitzenkandidat para a escolha das chefias europeias, Sassoli vê-se como o improvável - e surpreendido - sucessor de Antonio Tajani à frente do Parlamento Europeu, coincidentemente também italiano, também ex-jornalista, mas da família política rival. A dúvida sobre a sua capacidade para assumir o fardo seria rapidamente ultrapassada. Contra uma leucemia, é forçado a tirar um tempo, mas regressa em forma. Contra uma pandemia, garante que um parlamento permanente afetado pelo distanciamento social continua "sempre envolvido", enaltece Elisa Ferreira.

"Pela primeira vez na sua história, o Parlamento Europeu votou por unanimidade e de forma eletrónica", destaca igualmente a comissária, exemplificando o modo como o italiano assegurou que a instituição cumpria o seu propósito durante a crise sanitária. "Mais do que uma história em particular, lembro-me de como ele simboliza um ciclo de vida, em que estamos num momento e deixamos de estar num instante", lamenta Zorrinho, de quem era próximo. "Marcou pela personalidade, como amigo; e pela política, como presidente." Ana Gomes eleva, sobretudo, o seu lado humano. "Era muito diferente dos seus antecessores. Via-se que gostava das pessoas. Durante a pandemia, abriu o Parlamento Europeu, converteu-o num centro de testagem gratuita e criou uma task force para proteger sem-abrigo e vítimas de violência doméstica. Era um homem de profunda generosidade", termina a militante do Partido Socialista.

Carlos Moedas, que o conheceu durante o mandato como comissário da Inovação, descreve-o como dono de "uma simplicidade enorme no trato". "Acreditava muito na Europa. Fazia parte daquele grupo de deputados em que não interessa verdadeiramente o grupo político. Estava sempre do lado da Europa, do lado solução", saúda o hoje presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

Sassoli, que chegou a acalentar esperanças de uma recandidatura - solidificada na boa relação de trabalho estabelecida com Von der Leyen -, deixa assim um parlamento sem presidente, uma Europa com menos um europeísta e a política com menos um cavalheiro.

Os amigos chamavam-lhe Davi.

Colunista

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