O lado bom da pandemia

Mas há? Legitima pergunta do leitor. Numa perspetiva otimista, recorro à imagem do copo meio cheio, meio vazio - sabendo nos dias que correm qualquer das opções ser pouco defensável.

A verdade, porém, é que, ao longo dos já mais de 10 anos como membro de um órgão de gestão de uma Instituição de Ensino Superior em Portugal, parece de facto ser possível "ver" um lado bom da pandemia.

Quando começamos a preparar o próximo ano letivo (2021/2022), há que olhar os dados já disponíveis sobre 2020/2021. E esses são sem sombra de dúvida, dos melhores dos últimos anos.

Ao contrário do que tem vindo a suceder e da tendência para o qual os estudos naturalmente apontam, face à reduzida taxa de natalidade e à inversão da pirâmide etária (ou contributiva noutra perspetiva), em 2020 tivemos mais candidatos ao ensino superior.

Porque as médias e o seu cálculo alterado, permitiu e incentivou mais candidatos talvez; mas a verdade é que o aumento foi real. Desde 2015 até ao presente ano letivo, verifica-se um aumento de cerca de 13% (fonte: DGEEC). Isto é, passamos de menos de 360 mil para cerca de 400 mil.

Para além das políticas e investimentos públicos e das medidas e adaptações introduzidas pelos privados, ao longo deste período - todos em consonância com os "ditames" da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior - o facto é que há mais estudantes no Ensino Superior, público e privado, e menos Cursos Superiores e Instituições de Ensino.

Hoje metade dos jovens portugueses com 20 anos frequenta o ensino superior. E estes dados são ainda mais relevantes quando vemos que por exemplo, quando comparamos os dados com os de 2019, vemos que o aumento é de 23% (sem querer mascarar aqui os números, pois a questão colocar-se-á a dada altura não em percentagem, mas em número absoluto, dando origem a um excedente de oferta face à procura - mas desse tema trataremos noutro momento).

Mas vemos que ao contrário do que já nos tínhamos habituado a ver, este ano, dois terços dos cursos não deixaram qualquer vaga por preencher logo na primeira fase. Quanto à questão do politécnico e do universitário, continua a prevalecer este último. Mas a opção pelo politécnico vai crescendo com um outro dado relevante: é que há um aumento de 24% no ingresso em zonas de menor pressão demográfica, o que pode parece vir a contribuir para combater a "desertificação do interior", caso se consigam criar condições que levem à fixação dos profissionais formados nesses territórios.

Para além de mais candidatos e consequentemente mais Estudantes, a pandemia trouxe outros aspetos positivos à Academia; note-se que foi o único nível de ensino cuja atividade não foi interrompida com este segundo confinamento; porque as Instituições se preparam, se adaptaram. No fundo levaram a cabo uma revolução a vários níveis.

A revolução tecnológica da universalização da lecionação à distância. Em que as plataformas eletrónicas são as novas salas e auditórios, permitindo garantir a não interrupção e a continuidade do processo de aprendizagem, tornando até mais acessível o ensino, mas "gentrificando-o" por distante e em certa medida desumanizado - sendo este (espera-se), o menor dos males.

Por outro lado, uma "revolução" nas alterações dos currículos e dos métodos pedagógicos que se impuseram para que esta nova forma de aprendizagem não pusesse em causa a qualidade do ensino ou o reconhecimento das competências adquiridas por parte dos nossos Estudantes, pelos nossos parceiros da União, garantindo assim que se mantém em princípio a ideia do mercado e trabalho não de 10, mas de 350 M de pessoas.

Por fim o desafio com que estamos indubitavelmente confrontados: saber de que forma vamos conseguir lidar com os novos profissionais que agora estamos a formar, o que temos para lhes oferecer em termos de futuro e qual o papel que têm a desempenhar numa sociedade que se quer mais justa, solidária e fraterna.

Estou certo de que a educação é o que se ensina em casa. É aí que residem os valores e as bases. As competências adquiridas nas IES, são depois a concretização prática somada à educação que cada um trouxe de casa. Confio nos nossos jovens. E nos seus pais. Confio no Futuro. Por eles e por nós.

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