Há uma emergência em Lisboa. Há mesmo?

Lisboa é a minha segunda cidade - tenho família, amigos, trabalhei alguns anos na capital. Por isso as três situações covid que me reportaram esta semana fazem recordar janeiro: problemas covid numas filmagens; turma enviada para casa com casos covid; problemas na organização de um jogo de futebol distrital este domingo porque foram detetados jogadores com covid. Serve de amostra? Não. Mas ao ler a notícia TSF de que a Administração Regional de Saúde de Lisboa ainda só tomou conhecimento de um caso na qual que é admitido como provável os festejos do Sporting, julgo que fica demonstrado como é impossível o trabalho dos rastreadores em circunstâncias destas. Ao mesmo tempo, torna-se evidente a culpa de se participar num evento assim e admiti-lo a seguir.

Esta loucura podia estar pintada de verde ou azul - ou até de vermelho (veremos o que sucede logo à noite). Haveria, erradamente, sempre alguns milhares na rua. Mas regresso a ela porque ela reflete mais do que futebol: a desigualdade social e regional da pandemia.

Três dados enquadram o que se passou: Lisboa é de longe a cidade com mais teletrabalho (calcula-se que 60% do total do emprego). Isso ajuda muito a evitar a propagação da doença e aumenta a sensação de segurança. Não fosse o absurdo natalício e Lisboa e Vale do Tejo nunca teria ultrapassado o Norte - onde o teletrabalho vale menos do que a ida para as fábricas e construção.

Em segundo lugar, a enorme presença de emprego ligado ao Estado, com rendimento assegurado, ou emprego em grandes empresas, diminui significativamente o stress de quem está a viver a pandemia - e isso permite ir para a rua festejar títulos porque o emprego não está em causa, mesmo que se fique duas semanas de baixa covid.

Por fim, os dois primeiros pontos traduzem-se num rendimento per capita na Área Metropolitana de Lisboa de 30 por cento acima da média europeia. Todas as outras regiões portuguesas estão abaixo, com o Norte em último lugar - 25 por cento abaixo da média europeia. Uma loucura assim é mais fácil quando o rendimento não é um problema na agenda. Ou não - e Portugal é um caso de insanidade de Norte a Sul. Falta provar.

Na ressaca da festa ficam em causa, em Lisboa, os trabalhadores que estão nas obras e fábricas, os que vivem do comércio e dos shoppings, do turismo, etc. Todos a um passo de sofrerem consequências muito graves se o alastramento da doença não for estancado de imediato como uma emergência.

Uma vez mais será despejado dinheiro num incêndio totalmente previsível, negligenciado no topo da pirâmide pela ministra adjunta Mariana Vieira da Silva (que substitui António Costa na covid), pelo inevitável ministro Cabrita e, claro, pelo presidente da Câmara de Lisboa - que não quis enfrentar sozinho a omissão do Governo ao "não" ao Marquês. Quanto ao Sporting, como ouvimos esta semana, fez tudo bem...

Que os infetados covid da festa fiquem em casa a receber 100% do salário, apesar da sua loucura, nada a dizer, é Portugal. Mas os números de contágio são "apenas" estes? O Governo quer mesmo saber o que se passa? Há realmente uma diminuição de testagem, apesar de um evento daquela magnitude? É desesperante darmo-nos ao luxo de falhar no mais fácil. Imaginem o impacto em Lisboa (e na imagem do país) de um recuo do confinamento na capital portuguesa. É de fugir.

Jornalista

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