Figura do Dia. Paco Bandeira

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O homem já fez 80 anos e tem sido apanhado várias vezes em fora de jogo, mas foi uma das figuras da noite eleitoral. Involuntariamente, jure-se em seu abono.

Quem diria que Paco Bandeira, mais de meio século depois de ter escrito, ainda sem democracia, o Ó Elvas, ó Elvas, voltasse a invadir-me a cabeça?

Provo a minha imperfeição, talvez até um pouco a qualidade do fígado - só assim se justifica que, perante uma vitória esmagadora da democracia, tenha adormecido a matutar na única cidade que deu o triunfo a Ventura. Entrei nos sonhos a pensar que foram mais os elvenses que votaram contra a democracia, e pela arruaça, do que aqueles que preferiram a moderação.

Paco Bandeira.
Paco Bandeira.Steven Governo / Global Imagens

A oito quilómetros de Badajoz, terra dos caramelos que os nossos pais e avós nos traziam quando iam ao único estrangeiro que lhes era possível, Paco imortalizou Elvas numa canção que é tão conhecida como o incrível Aqueduto da Amoreira. Falou de uma cidade que contrabandeia “amor e saudade”, confesso que só agora percebi a dimensão desta letra.

Que feliz deve estar António Sardinha, filho adotivo da terra, que está lavrado nos livros amarelecidos como um dos principais ideólogos do Estado Novo. Um Salazar antes de Salazar.

O fundador do Integralismo Lusitano que preconizava um país sem partidos, orientado por famílias e corporações. Um país amancebado de Espanha contra o liberalismo e as elites. O seu espírito ainda deve penar pelos cafés da Praça da República, talvez só um caçador de almas possa explicar o que aconteceu a tanta gente digna e decente para ter escolhido as trevas.

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