Demências

As demências representam, reconhecidamente, um preocupante problema de saúde pública, não só atendendo à frequência e à complexidade do tratamento, como também às dificuldades que colocam nas dimensões familiares e comunitárias. Constituem uma epidemia que as sociedades modernas e democráticas não podem ignorar.

Pela frequência e a magnitude que já exibem, as demências são consideradas desafios prioritários, quer em termos de prevenção quer de diagnóstico precoce e terapêutica. É, para tal, absolutamente necessário mobilizar mais meios. Antes de tudo, são indispensáveis mais conhecimentos científicos, tanto sobre a sua génese e a possível componente hereditária, bem como sobre prevenção primária, diagnóstico clínico e tratamento medicamentoso.

É cada vez mais urgente descobrir novas abordagens, soluções e respostas, incluindo sociais. Para tal há que investir. Investir muito mais. O Estado e os setores privado e social são convocados a tudo fazerem para colocar o controlo das demências nas respetivas agendas. Inadiável.

As demências, se bem que apresentem quadros clínicos semelhantes, englobam doenças distintas, sendo a mais célebre a doença de Alzheimer. Mas, também, são frequentes a demência com corpos de Lewy (causada por depósitos anormais de proteína, com forma esférica, nas células nervosas) e a vascular (associada a acidentes vasculares cerebrais devidos à aterosclerose ou à hipertensão arterial). A mais comum e "popular" das três síndromes demenciais é, sem dúvida, a primeira.

Apesar de origens diferentes, as demências têm, clinicamente, sintomas e sinais análogos, expressos pela diminuição progressiva da capacidade intelectual, quase sempre lenta, com perturbações da memória, do pensamento e dificuldade de aprendizagem.

A relação proporcional entre a frequência das demências e a idade dos doentes está bem estabelecida, incluindo para a população portuguesa. Repare-se que no grupo de idades entre 65 e 74 anos a prevalência é de 2%, mas que cresce para 30%-40% acima de 85 anos de idade.

Estudos recentes indicam que haverá uma certa predisposição familiar, pelo que filhos e netos de doentes com demência poderão ter maior probabilidade de adquirirem a doença.

Por outro lado, a relação da incidência das demências com determinantes sociais foi comprovada pelo médico epidemiologista inglês Michael Marmot. Foi o primeiro a demonstrar, cientificamente, que a demência ocorre com mais frequência e mais precocemente em pessoas pobres. Comparou duas amostras aleatórias e representativas de dois grupos diferentes da população: uma formada por pessoas com altos rendimentos familiares e outra composta por pessoas comprovadamente pobres.

Observou que os primeiros sinais de perturbação cognitiva ocorriam 15 anos mais tarde nos indivíduos pertencentes à primeira amostra, isto é, a correspondente às classes altas. Viria, mais uma vez, a demonstrar a existência de um gradiente social que determina o aparecimento da doença. A pobreza é geradora de doença.

Por tudo isto que acima se resumiu, pode admitir-se que muitas das pessoas atualmente residentes em lares de idosos, a par da idade avançada, terão demências sem serem diagnosticadas e tratadas devidamente.

Compreende-se, assim, que a saúde mental deva ocupar uma preocupação central a níveis familiar, social e da política de saúde.


Ex-diretor-geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

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