As eleições no Brasil também nos dizem respeito

É já no próximo domingo, 2 de outubro, que os brasileiros serão chamados às urnas para escolherem o presidente da República, assim como os novos senadores, deputados federais e estaduais e governadores. A escolha do primeiro é o que mais tem mobilizado a atenção da opinião pública internacional. O facto justifica-se, desde logo, pela importância do Brasil, pois, afinal, trata-se do maior país da América Latina, o maior país de língua portuguesa e uma das principais economias do mundo, fazendo parte do grupo de potências do chamado Sul Global.

Uma outra razão, entretanto, que explica a importância das próximas eleições brasileiras para o resto do mundo é que o país é governado, presentemente, por forças ligadas ao movimento de extrema direita internacional. Saber se tais forças permanecerão no poder ou não interessa-nos a todos, num momento como aquele que vivemos atualmente, marcado pelo crescimento do neofascismo ou protofascismo, como se quiser, no mundo inteiro.

Recordo que o resultado de dois processos eleitorais realizados há pouco tempo na Europa confirma esse crescimento. Refiro-me à Suécia e à Itália. Tais países juntam-se, assim, à Hungria e à Polónia. Não esquecer, claro, a própria França, onde o partido de Marine Le Pen já é a principal força política entre os trabalhadores e residentes nos subúrbios, pondo a nu o fracasso das forças progressistas em geral e, em particular, da chamada esquerda woke.

De facto, depois da crise financeira de 2008, levantou-se uma onda antidemocrática global, que atingiu inclusive o país que é considerado o "farol" da democracia liberal, ou seja, os Estados Unidos, onde o fenómeno do trumpismo não desapareceu com a derrota de Donald Trump em 2020 e nem desaparecerá mesmo se ele for legalmente impedido de se candidatar dentro de dois anos. As forças por detrás desse fenómeno local estão articuladas, na realidade, com as demais forças da extrema direita em todo o mundo, como o sinalizou, por falar nas eleições brasileiras, o próprio Donald Trump, ao anunciar o seu apoio a Jair Bolsonaro

As eleições brasileiras do próximo domingo podem, assim, ser consideradas um verdadeiro plebiscito, opondo não apenas a democracia à ditadura, mas a civilização à barbárie.

O que é preocupante é o notório acomodamento da direita liberal a esse crescimento da extrema direita, dando-se por satisfeita, por exemplo, com a suavização semântica do discurso das suas principais figuras, como fez, por exemplo, a líder do Irmãos de Itália, Georgia Meloni, durante a recente campanha eleitoral na Itália. Isso não é ingenuidade, é alinhamento (como parecem indiciar, por exemplo, e para dar um exemplo extraído da atualidade política portuguesa, as recentes piscadelas de olho do PSD ao partido Chega).

Uma das diferenças do cenário brasileiro é que o atual presidente, um assumido representante dessas forças conservadoras extremistas em crescimento desde a

primeira década do presente século, não faz qualquer esforço para suavizar e matizar a postura. Recorrendo a uma expressão popular brasileira, ele mata a cobra e mostra o pau: demonstra o seu desprezo pelos humildes, zomba dos doentes, ataca as mulheres e os negros, recorre à xenofobia religiosa, investe contra os outros poderes, nomeadamente o judiciário, promove a venda indiscriminada de armas e incita os seus apoiantes a atos de violência política. Como pano de fundo, mantém um esquema de enriquecimento ilícito que põe por terra a sua imagem de anti-corrupção cultivada para vencer as eleições há quatro anos atrás. Exceto, claro, aos olhos dos fanáticos.

As eleições brasileiras do próximo domingo podem, assim, ser consideradas um verdadeiro plebiscito, opondo não apenas a democracia à ditadura, mas a civilização à barbárie. Como sublinha Sérgio Fausto na edição de agosto da revista Piauí, o que está em jogo nestas eleições é "o direito de continuarmos a divergir pacífica e democraticamente sobre a melhor maneira de construir um país mais justo, próspero e sustentável, orgulhoso da sua diversidade". Entre os dois candidatos com possibilidades efetivas de vencer, apenas um tem perfil (e histórico) para garantir isso. Chama-se Lula.


Escritor e jornalista angolano.
Diretor da revista
África 21

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