A verdade à nossa frente

Quem estude o que se escreve e diz em todos os países, meios e suportes, quem não fique ensurdecido pela ruidosa noosfera que regista, como num sismógrafo, o estado de espírito da nossa primeira cultura planetária, constatará que existe um elefante na sala. Dito de outro modo, o futuro das gerações mais jovens ameaça desaguar num planeta irreconhecível, desequilibrado, empobrecido.
A causa não é externa. Não reside nem numa ameaça alienígena nem na eventual colisão de um meteorito de grandes proporções, como nos filmes de Hollywood. O problema radica em nós próprios. Na inércia de um modelo económico que apresenta características virais. Em vez de habitar a Terra de um modo simbiótico, respeitando os limites que a ética decreta e o conhecimento científico identifica com rigor, esse modelo atua sobre a Terra como um exterminador implacável. Um predador capaz até de autofagia.

Para o leitor que considere existir exagero nestas palavras, recomendo que veja com os seus próprios olhos. No passado dia 15, a plataforma Google Earth disponibilizou uma poderosa ferramenta: Timelapse. Partindo de uma enorme base de dados contendo 24 milhões de fotografias tiradas por satélites, é possível reconstruir em poucos minutos a evolução da paisagem de grandes áreas terrestres num período de 36 anos, entre 1984 e 2020. Na apresentação deste novo instrumento, a plataforma disponibilizou pequenos filmes mostrando como nesse período as florestas mais ricas em biodiversidade têm sido destruídas, como os solos rurais têm sido devorados pelo crescimento das áreas urbanas, como a agricultura intensiva estende os seus braços, como a criosfera tem recuado perante o avanço das alterações climáticas... Há mais de um século, o grande pensador de Bilbau
Miguel de Unamuno, olhando para a tragédia de muitos intelectuais portugueses, chamava-nos um povo de suicidas. Visionando a superfície terrestre, com esse olhar distante que os satélites permitem, Unamuno perceberia hoje que, de facto, suicida é a corrida em que a espécie humana está embarcada, sem aparente capacidade de inverter o rumo.

Como chegámos aqui? Ao formular esta pergunta, recordei-me de uma entrevista de uma das figuras maiores da luta contra a segregação racial nos EUA, o escritor James Baldwin (1924-1987): "Nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado, mas nada poderá ser mudado até que o tenhamos enfrentado." Desde 1984 até ao presente temos assistido à expansão de duas tendências contraditórias. Por um lado, o desenvolvimento do nosso conhecimento do estado global do ambiente e do clima tem sido exponencial. Não será por falta de informação que continuaremos nesta estrada que poderá terminar num fatal desfiladeiro. Para compreendermos o motivo por que o nosso conhecimento se tem revelado tão impotente, importa não esquecer a segunda tendência que se hipertrofiou neste lapso temporal: a hegemonia planetária do modelo de capitalismo neoliberal. As imagens do Timelapse devolvem-nos o rosto de um planeta governado pelos génios malignos libertados pela destruição das políticas públicas e do papel regulador dos Estados, inerente ao triunfo do neoliberalismo: o extrativismo, o consumismo, o egoísmo, a ganância. Sem a reconstrução do papel do Estado como criador de bens públicos, o mercado mundial deixará de poder ser um instrumento ao serviço da sociedade, para continuar como o seu mais letal inimigo.

Professor universitário

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