A "identidade nacional" de António Costa

O primeiro-ministro está preocupado com "uma fratura perigosa para a nossa identidade nacional" que advirá, segundo diz, de uma visão "autoflageladora da História" de que Mamadou Ba será exemplo. E eu estou preocupada com a ideia de "identidade nacional" do PM - e o seu sentido de oportunidade.

Em entrevista ao Público, António Costa disse-se "profundamente preocupado" com "as guerras culturais em torno do racismo e da memória histórica" - tão preocupado que gostaria de escrever um "longo artigo sobre o tema, se tivesse tempo".

Tenho pena que o PM não tenha tempo - gostava mesmo de perceber como explica colocar no mesmo plano e como igualmente "muito perigosos" o que designa como "dois fenómenos que estão a surgir entre nós e têm o efeito de se emularem um ao outro": "uma revisão autoflageladora da nossa História" e "a liberação de reações racistas ou xenófobas". Fenómenos que resume em duas pessoas: Mamadou Ba e André Ventura, dos quais assevera que nem um nem outro representam, "felizmente", "aquilo que é o sentimento da generalidade do país."

Fiquei pela minha parte profundamente preocupada - e contristada - com estas palavras do PM.

Para começar: isto que o líder do PS diz ouve-se e lê-se todos os dias da direita nacionalista e da miríade de colunistas, tuiteiros e facebokianos que não só negam que Portugal seja racista como invariavelmente chamam racistas aos antirracistas (coisa na qual aliás, não por acaso, o próprio Ventura é useiro e vezeiro) -, colocando no mesmo nível quem manda negros para a terra deles (porque, obviamente, se são negros não são daqui, têm de ter outra terra), afirma que todos os ciganos vivem do RSI e associa todos os muçulmanos ao terrorismo, e quem é vítima desse discurso e ações e/ou os combate. É a teoria de que falar de racismo é criar racismo - que já vimos em Rui Rio ("Ainda ficamos racistas com tanta manifestação antirracista, não há racismo na sociedade portuguesa.")

Mas vir do primeiro PM a nomear uma ministra negra neste país ao fim de mais de 40 anos de democracia (ministra que não perde uma oportunidade de denunciar o racismo estrutural português, afirmando que a maior expressão de racismo é negá-lo e que isso "conduz ao desastre"), ele próprio vítima de apodos racistas, líder do partido que em 2020 fez aprovar no parlamento uma resolução a assumir o racismo estrutural do país e a propor medidas para o combater? E no preciso momento em que é noticiada a existência de uma petição ao parlamento para que este discuta a expulsão do português negro Mamadou Ba, na sequência de o líder do Chega ter feito a mesma sugestão para a portuguesa negra Joacine Katar Moreira?

Dizer de Mamadou, constante vítima de insultos, calúnias, ameaças à integridade física e à vida, que é "muito perigoso" não é só de enorme crueldade e irresponsabilidade; não é só contraditório com o facto de o governo que dirige ter acabado de criar um Grupo de Trabalho para a Prevenção e Combate à Discriminação Racial que deverá propor medidas para Primeiro Plano Nacional contra o Racismo (primeiro, sublinhe-se, em 2021) e convidado Mamadou Ba para fazer parte dele.

É pior ainda. Porque os motivos invocados para considerar Mamadou "muito perigoso" vão ao encontro da retórica dos que o pretendem expulsar - a deliberação de morte simbólica contida na deportação deve-se a considerarem-no "insultador da identidade e sentimentos nacionais". Leia-se a repugnante petição: "Mamadu Ma [sic] profere frases e afirmações que colidem com os valores do cidadão comum e, infelizmente, apenas têm contribuído para fomentar o ódio e o mau [sic] estar entre as raças! (...) [É] alguém que não se sente bem em Portugal nem com a nossa cultura e valores!"

Também os peticionários se arrogam falar pela "cultura e valores" de Portugal, como António Costa pelo "sentimento da generalidade" do país e pela "identidade nacional" - que vê em perigo por se "estar a abrir, de forma artificial, uma fratura perigosa". Fratura essa que parece atribuir em primeiro lugar à tal "revisão da História", já que fala de "reações racistas e xenófobas" - pelos vistos os racistas e xenófobos estão a reagir, portanto se não os provocassem não reagiam e estávamos na paz dos anjos (como até agora, depreende-se).

Falta o tal "artigo longo" para se perceber inteiramente o que entende o PM por "identidade nacional". Mas na falta dele vejo-me, com mágoa, obrigada a concluir que a fratura perigosa que o PM vê abrir-se e ameaçá-la, a essa tal identidade, é mesmo a discussão sobre o racismo. A qual, depreende-se, não terá sentido porque, afirma, somos um país sempre elogiado pelas Nações Unidas como "modelo de boas práticas na integração das comunidades migrantes" (afirmar isto quando decorre o julgamento de três inspetores da polícia de estrangeiros por homicídio de um cidadão ucraniano no aeroporto, desvendando a realidade das "boas práticas" de "acolhimento", e quando se prepara o desmantelamento da mesma em resultado dessa morte é no mínimo atrevido; falar de discriminação racial como se dissesse apenas respeito a migrantes e não incidisse também sobre portugueses, obliterando o facto de as mesmas Nações Unidas e o Conselho da Europa apontarem várias insuficiências ao país no que à consciencialização sobre racismo e ao combate contra ele respeita é todo outro nível). E um país que, claro, não esquecer, se "miscigenou pelo mundo" e foi capaz de "diálogo intercultural e interreligioso".

Somos incríveis, não somos? Foi aliás tanto o "diálogo" histórico que nos fartámos e agora já não dá mais, sob pena de perdermos a "identidade". E quem não se identificar com tal suposta "identidade nacional" ou se cala ou vai para a sua terra. A ver se procuro a minha, então.

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