“Podes ser o que quiseres.” Mas só se for perto de casa

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Morar no Interior do país e pertencer a um agregado familiar com rendimentos baixos são duas das condições que mais desequilibram o acesso dos jovens aos Ensino Superior. As conclusões do estudo da Edulog (Centro de Reflexão da Fundação Belmiro de Azevedo), que fizeram a manchete do DN na passada segunda-feira, dia 23 de fevereiro, são fáceis de explicar: os alunos que moram em zonas do Interior têm menos oferta académica nas suas regiões e, inevitavelmente, muitos acabam por prosseguir os estudos longe de casa.

Porém, a quantidade dos que o conseguem fazer tende a diminuir, já que a despesa com o alojamento disparou nos últimos anos e tornou-se, em muitos casos, impossível de acomodar nos orçamentos familiares, afetando sobretudo os agregados (e alunos) com rendimentos mais baixos. Mais do que um novo paradigma, que não é, de todo, o estudo, realça que esta é uma realidade “persistente”, o que demonstra que as medidas pontuais que possam ter sido tomadas para corrigir as desigualdades não têm dado resultados.

Pelo contrário, o problema agrava-se. A escalada no preços das rendas em Portugal afeta, naturalmente, o alojamento para estudantes deslocados. Segundo dados do Observatório do Alojamento Estudantil, em novembro de 2025 o preço médio no país de um quarto para estudantes estava nos 410 euros. Recuando na consulta destes relatórios até novembro de 2021, constata-se que o valor médio era então de 267 euros – ou seja, no espaço de quatro anos aumentou 143 euros (+53,6%).

Perante esta subida acentuada, o espetro de famílias condicionadas no financiamento dos estudos dos filhos já não se cinge apenas às de salários mais baixos, pois também afeta as escolhas de agregados da chamada classe média, que vivem igualmente pressionados pelo aumento das prestações ou renda da casa, do custo de vida em geral e pela carga fiscal que lhes é aplicada. Ou seja, a desigualdade gerada pela condição financeira abarca um número crescente de alunos.

Há umas semanas participei numa conversa sobre o tema. Recordei o tempo em que também fui estudante deslocado e precisava de dinheiro para tudo: alimentação, material escolar, roupa, transportes, etc. E reconheci que tive a vantagem de o fazer num tempo em que o custo com o alojamento era incomparavelmente inferior ao atual – o máximo que paguei por um quarto, num distrito do Interior do país, foi 75€ mensais.

Na sequência desta conversa, um dos presentes na sala dirigiu-se à filha e disse: “Já sabes: podes estudar o que quiseres, mas tem de ser aqui perto de casa.” A “ambição condicionada” – ora aqui está uma realidade cada vez mais comum. O elevador social está lento e não há manutenção que o acelere.

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