A nomeação de Luís Neves para ministro da Administração Interna foi recebida com uma unanimidade política tão rara, quanto inquietante. Quando figuras oriundas de quadrantes ideológicos opostos convergem num aplauso quase automático, não é ilegítimo perguntar se se celebra o mérito do nomeado ou se se evita, por conveniência, um debate mais exigente sobre o seu percurso e as suas posições públicas.Luís Neves traz consigo um currículo técnico respeitável, mas também declarações que suscitam reservas. Entre elas, a polémica afirmação de que o aumento da criminalidade corresponderia sobretudo a “percepções”. Talvez esta formulação tenha sido infeliz, além de politicamente imprudente, porque denota um preocupante afastamento entre discurso institucional e sentimento social, ainda para mais quando não há números sólidos que sustentem quaisquer posições.Num ministério onde a confiança pública é tão essencial quanto a eficácia operacional, relativizar a insegurança sentida pelos cidadãos não é apenas um erro retórico: poderá ser um risco político.Acresce que a sua trajectória decorreu quase exclusivamente no interior das estruturas policiais e de investigação, o que levanta uma questão central: terá a flexibilidade negocial necessária para lidar com sindicatos das forças de segurança, historicamente exigentes e pouco tolerantes a lógicas hierárquicas importadas da cadeia de comando? A experiência mostra que o Ministério da Administração Interna não se governa apenas com competência técnica; governa-se com capacidade de escuta, habilidade política e sensibilidade institucional.A surpreendente aceitação transversal da sua escolha pode, paradoxalmente, tornar-se um fardo. Quanto maior a expectativa inicial, sabemos que mais severo será o julgamento perante qualquer falha.Luís Neves inicia funções com o benefício da dúvida. Porém, terá também o peso de provar que não é apenas um bom quadro policial promovido a ministro e sim um verdadeiro responsável político capaz de responder, sem evasivas, às inquietações reais do país. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico