Apesar de conhecer Luís Neves, novo ministro da Administração Interna, com quem coincidi em funções dirigentes no Ministério da Justiça alguns anos, nada de pessoal me leva a defendê-lo ou a atacá-lo neste momento. Mas há elementos muito objetivos para o enaltecer.Desde logo porque afirmou publicamente aspetos de verdade, quando muitos se apascentaram silenciosamente perante esta. Quais? Por exemplo, os da dificuldade em captar e manter pessoas decentes para integrarem os corpos das forças de segurança, perante os salários pagos e as exigências das funções. Com consequências que têm estado à vista, seja na planura de Beja ou na selectio aparente da Esquadra do Rato, em Lisboa, apesar de o normalizarmos como só mais um facto, só mais um evento, só mais uma notícia, só mais uma pequena anomalia, só mais - duplamente - um caso de polícia... Ou a inaceitável identidade entre aumento da imigração e aumento da criminalidade, errada factualmente a todos os níveis, como tem sido apresentada pelo partido Chega, com a bonomia conveniente e ativa dos partidos que suportam o atual Governo.Bem ou mal, o primeiro-ministro tem tentado, talvez com alguma ingenuidade ou, noutra perspetiva, até com um verdadeiro intuito de decência, acentuar elementos de bem nas suas escolhas para a Administração Interna. Em três anos, três ministros, é certo. De perfis distintos: uma procuradora que, como é apanágio da classe, sempre tentou fugir aos tribunais e procurar outras funções progredindo na carreira de origem, alegadamente com mau feitio; uma professora de Direito e, íntegra, em funções à época como Provedora de Justiça, que tudo sabia do substantivo sobre a matéria em que assentava a interinidade dos homens, mas estava aparentemente desfazada do tempo comunicacional devido, e não trataria autarcas e bombeiros, a sua clientela afinal, com a devida deferência; e o até agora diretor da Polícia Judiciária. Que nada terá de extraordinário: a não ser ter sido um excelente diretor da Polícia Judiciária desde 2018, o melhor de serviço policial que temos por cá, continuando aliás um legado iniciado pelo ministro Alberto Costa, quando em funções na Justiça, com a nomeação inédita então de Almeida Rodrigues, colocando pela primeira vez um inspetor da PJ como seu diretor em vez do costumeiro juiz ou procurador, prova de confiança, agora acentuada, na valia de quem combate efetivamente o crime e não discursa ou decide sobre ele.As anteriores titulares - de mau feitio ou por não se afeiçoarem a beberetes de associações humanitárias - soçobraram rapidamente. Será agora a vez do novo titular, que já conhece o circuito noticioso, e que sabe bem distinguir o essencial do acessório e o devido do necessário.E o que se pede a um ministro e a um governo na área da Administração Interna, esse detalhe? Tendo sempre de fazer escolhas, haveria de se dar prioridade ao estrutural e não ao episódico.A resposta a fenómenos climáticos extremos é, felizmente, ainda, do domínio do ocasional. A sua prevenção e preparação não é.A capacitação das forças de segurança para um novo tempo, incluindo a sua capacidade de captação de quadros e de formação e seleção internas, é igualmente decisiva.E a organização operacional rentável e efetiva de dispositivos que possam responder a um contexto social que muda rapidamente, com gestão de informação e tecnologia adequadas, é fundamental, frustrando, se necessário, capelas institucionais e heranças provindas de outros tempos. E isto vale para bombeiros, para polícias de giro e para intelligence criminal.Três desígnios simples na sua formulação em texto... Espera-se que o Governo a eles consiga corresponder.