«O apoio às artes é um subsídio ao espectador»

Ator, dramaturgo, produtor teatral, encenador e o mais jovem diretor artístico de sempre do Teatro Nacional D. Maria II. De um inexperiente espera-se que cometa erros e Tiago Rodrigues, 38 anos, assumiu a liberdade de correr riscos. Sabia que o pior serviço que podia prestar ao D. Maria seria jogar pelo seguro, apostar no mais fácil e previsível. Desenhou, então, um espaço de fruição e de festa, aberto à cidade e ao país. A «aventura magnífica» começou há ano.

Um homem tem de viver com um pé na primavera», verso de Assis Pacheco, padrinho de batismo, assenta-lhe, inteiro. Cumpre o poema: fez uma filha e fez versos, caminha no meio de mistérios e de imprecisões, procura o risco porque «é arriscado ser-se um homem». Tiago Rodrigues quis ser mecânico e foi jornalista. É ator, dramaturgo, encenador e a cada dia procura no teatro «a experiência inicial e única». De recomeços inadiáveis, faz da busca do desconhecido alimento da energia permanente. Deixa os adjetivos para os mortos: juntar, mobilizar, fruir são palavras suas, urgentes, vitais. É há um ano diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II. O mais jovem de sempre.

Para que serve um Teatro Nacional?
O Teatro Nacional foi fundado por Almeida Garrett em 1846 - celebram-se agora os 170 anos - e várias das ideias que presidiram à fundação continuam urgentes. É dever de um teatro nacional tornar acessível aos portugueses, com preços democráticos, as grandes obras da dramaturgia universal, recorrendo a linguagens teatrais de hoje, interpelando e validando esses textos, num convite à reflexão, ao mistério e ao prazer que o teatro pode e deve proporcionar. Outro é a promoção da escrita teatral em português - 21 dos espetáculos apresentados nesta temporada são de autores nacionais, o que é prova clara de vitalidade. Mais: é obrigação abrir as portas a todos, para que todos se sintam donos deste espaço. Porque o são.

Como se conciliam esses objetivos com os constrangimentos orçamentais?
Nos últimos seis anos, o orçamento do Teatro Nacional sofreu um corte de quarenta por cento. O atual orçamento é manifestamente insuficiente se olharmos para o dinamismo que quisemos imprimir. E esse dinamismo só pode verificar-se se, no mínimo, recuperarmos esses quarenta por cento. No mínimo e muito rapidamente.

Muito rapidamente é quando?
A nossa proposta é que esse valor seja recuperado nos próximos três anos. Temos estado a falar com a tutela e a pergunta que faz sentido é exatamente: para que serve um teatro nacional? É importante verter as respostas para um contrato-programa que deverá ser plurianual; é importante que o Teatro Nacional mantenha a autonomia financeira, fator essencial para o desenvolvimento do projeto artístico, nas projeções nacional e internacional. Fizemos mais digressões no estrangeiro em 2015 do que nos 169 anos anteriores. Há uma aposta desta direção na internacionalização.

Qual deve ser a prioridade do ministro?
Mais financiamento. Sem isso, nem vale a pena discutir política cultural.

É importante para um teatro nacional ter a sua própria companhia?
Existindo condições, penso que sim. Temos seis atores residentes a que se juntam, por convite anual, seis atores recém-formados na Escola Superior de Teatro e Cinema. Ainda não é companhia como existiu no passado, mas é um gesto relevante, de apoio à profissionalização dos atores.

De que forma deve combater-se a precariedade na profissão?
Os recibos verdes, quando explicados a um estrangeiro, passam por anedota. E provocam casos de precariedade gravíssimos. Há trabalhadores que vivem hoje com um rendimento muito inferior ao que recebiam no início da atividade, há 15 ou 20 anos. É preciso coragem para resolver este problema.

O que diz a tutela?
Vivemos uma grande expetativa. A escolha de João Soares para ministro é de certa maneira a assunção política da importância de tratar a cultura com dignidade. Há hoje em Portugal um horizonte de esperança. E veja-se: a cultura é uma das atividades que conseguem multiplicar o investimento do Estado. Economicamente, é um fator de riqueza. Mas ainda que não fosse, deve ser encarada, tal como a saúde e a educação, como um investimento na qualidade de vida dos cidadãos. É preciso que o Orçamento do Estado reflita isso.

As receitas de bilheteira são outra forma de financiamento.
Batalhamos para as aumentar. Mas não devemos perder de vista que um serviço público de teatro não pode fazer depender das receitas de bilheteira a qualidade dos espetáculos e as condições de trabalho. Mais uma vez, voltamos à pergunta essencial: para que serve um teatro nacional? Serve, também, para que possamos, todos, ter acesso a teatro de pesquisa artística, a teatro de autor, a teatro que não esteja sujeito às regras de mercado.

A revista Passa por Mim no Rossio - dois anos em cena - foi o espetáculo mais visto de sempre no Teatro Nacional. É também um dado a ter em conta?
Foi um espetáculo emblemático do D. Maria II. A adesão do público é um aspeto fundamental da preparação de uma programação, mas não pode ser a prioridade. É preciso dar a conhecer o que, por vezes, ainda não é conhecido. Uma das missões deste teatro é a de garantir que o cidadão português não está refém do que dá lucro.

Continue a ler a entrevista a Tiago Rodrigues na Notícias Magazine.

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