Vacina pode ser ineficaz em idosos de risco. Vacinar os netos é solução

Comissão Científica da Câmara dos Lordes britânica admite que uma vacina pode não ter resultados nos mais idosos, o maior grupo de risco, sugerindo vacinar aqueles que os rodeiam para os proteger.

"Por vezes é possível proteger um grupo vulnerável ao vacinar os grupos à sua volta, isso acontece com a gripe, por exemplo", afirmou ao The Guardian Peter Openshaw. O professor do Imperial College é um dos cientistas e peritos que fazem parte do Nervtag, um grupo de sábios que foi ouvido pela Câmara dos Lordes britânica para encontrar uma resposta para a pandemia de covid-19.

A conclusão a que este grupo chegou é simples: uma vacina contra a covid-19 pode não funcionar nos mais velhos, o grupo mais suscetível de apanhar a doença e vir a morrer dela. A solução, garantem, será imunizar os grupos que os rodeiam, a começar pelas crianças, para evitar que passem a doença aos avós ou outros familiares mais idosos.

Lembrando que o Reino Unido "tem sido nos últimos anos pioneiros no desenvolvimentos de vacinas a partir do vírus atenuado", Openshaw explicou que ao dar a vacina da gripe às crianças, que raramente apanham esta doença, o país tem conseguido proteger o idosos que têm mais contacto com elas.

Uma estratégia que pensam repetir com a covid-19 logo que seja descoberta a vacina contra o novo coronavírus aparecido pela primeira vez em finais de 2019 na China.

As crianças parecem, de facto, menos suscetíveis à doença e praticamente não há registo de mortes nas faixas etárias infantis, mas na verdade não se sabe por que motivo é assim.

Sabe-se que as crianças têm muitos menos recetores para este vírus nas células do seu sistema respiratório, em relação aos adultos, e por isso os médicos e cientistas colocam a hipótese de isso ser determinante para que sejam pouco suscetíveis de infeção pelo Sars-cov-2. Mas poderá haver também outros fatores envolvidos.

Mas a verdadeira questão é se as crianças são ou não transmissoras da covid. E aqui também imperam as dúvidas, a ideia dominante tem sido que as crianças não são transmissoras eficientes do vírus, mas os resultados em sentido contrário de dois estudos publicados na semana passada por diferentes centros de investigação suíços, vieram lançar uma grande dúvida sobre essa assunção, e mostrar que, no fundo, estamos perante uma incerteza. São dados a ter em conta, num momento em que as creches se preparam para reabrir no país.

Quanto à proteção dos mais velhos e à eventual falta de eficiência de uma futura vacina, à medida que envelhecemos, o sistema imunitário vai enfraquecendo. Por isso Arne Akbar, professor de Imunologia na UCL e presidente da Sociedade Britânica de Imunologia garante que "uma coisa que acontece, mesmo em pessoas saudáveis, quando envelhecemos é que há mais inflamações no corpo. E temos de perceber de onde vem essa inflamação, qual a sua fonte", até porque, acrescenta o especialista, essa inflamação "é agravada quando se apanha covid-19".

Tendo em conta este cenário, Akbar está convencido que no caso dos mais idosos, a vacina só por si não será suficiente para combater a covid-19, exigindo outra medicação, como por exemplo a dexametasona, um anti-inflamatório da família dos corticoides, que um grupo de investigadores da Universidade de Oxford acredita ser o primeiro fármaco com resultados positivos no tratamento de doentes graves com covid-19.

Sucesso nos ensaios da vacina em porcos

Estas conclusões desta comissão científica da Câmara dos Lordes surgem num momento em que a Universidade de Oxford anunciou ter feito ensaios bem sucedidos em porcos de duas doses da sua vacina. De acordo com o Pirbright Institute, que está a trabalhar com os cientistas de Oxford, as duas doses de vacina aumentaram significativamente a resposta dos anticorpos dos porcos (que têm reações semelhantes às dos humanos) em relação à administração de uma só dose.

"Ainda não sabemos que nível de resposta imunológica será necessário para proteger os humanos contra o Sars-CoV-2, o vírus que provoca a covid-19. Os ensaios para testar a eficácia da vacina estão a decorrer em humanos e se os resultados não forem satisfatórios após uma só dose, é importante sabermos se administrar duas doses vai criar maior imunidade, e logo mais proteção", afirma o instituto num comunicado.

Neste momento ainda não existe vacina para a covid-19, nem para outras doenças humanas provocadas por coronavírus. Das 125 vacinas candidatas para a covid-19, à data de 27 de maio, 10 estavam a ser testadas em pessoas, ainda em fases iniciais, segundo a OMS. Não se sabe, por isso, quão seguras e eficazes são para prevenir a doença e qual o grau de proteção que conferem, se duradouro ou não.

A primeira vacina candidata começou a ser testada em humanos, com uma rapidez considerada sem precedentes, em 16 de março, nos Estados Unidos. Outras se seguiram, como é o caso desta da Universidade de Oxford, e com a promessa de estarem prontas em prazos cada vez mais curtos: ano e meio, início do próximo ano e segundo semestre deste ano.

O desenvolvimento de uma vacina - que induz a produção de anticorpos específicos contra um agente infeccioso, neste caso o SARS-CoV-2 - demora tempo porque tem de passar por sucessivos testes de segurança e eficácia.

Depois de descoberta, uma vacina terá ainda de ser produzida, distribuída e administrada em larga escala, como é o caso para a covid-19, o que dilata mais os prazos. Em média, uma vacina demora 10 anos a ser produzida.

Na pior das hipóteses, pode-se não conseguir uma vacina segura e eficaz para a covid-19. Ou então, a conseguir-se, poderá não ser dada a toda a gente, priorizando-se as pessoas em maior risco.

Os riscos de uma segunda vaga

E com o surgimento de novos surtos, obrigando vários países a impor novas medidas de confinamento e maiores restrições, a possibilidade de uma segunda vaga parece ganhar cada vez mais força, tornando ainda mais necessária a vacina contra a covid-19.

Em entrevista ao DN no passado sábado, Nuno Marques, que dirige o centro de investigação biomédica Algarve Biomedical Center confirmava: "Ninguém pode afirmar com toda a certeza, mas a probabilidade é muito alta. Estamos a falar de um vírus e de uma doença que têm tudo para ter um carácter sazonal. A probabilidade de uma segunda vaga no inverno no hemisfério norte é muito alta."

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