"UE estará muito interessada nas intenções de Zelensky sobre Donetsk"

Entrevista DN a Michael Emerson, primeiro embaixador da UE na URSS, sobre a visita do novo presidente ucraniano ao exterior. Volodymyr Zelensky, de 41 anos, chega esta terça-feira a Bruxelas.

Em 1991 tornou-se o primeiro embaixador do bloco europeu na então URSS. Michael Emerson assistiu aos últimos dias do bloco soviético, de onde regressou em 1996, para integrar o núcleo de investigadores seniores da London School of Economics.

Mais recentemente, têm-se debruçado ao estudo da Europa Oriental, com projetos sobre a Ucrânia, Moldávia e Geórgia.

Em entrevista ao DN, Michael Emerson classifica como "sinal positivo" que a primeira visita ao exterior do novo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, seja a Bruxelas. Acontece esta terça-feira.

A primeira visita de Volodymyr Zelensky ao exterior, enquanto presidente da Ucrânia, é a Bruxelas, às instituições europeias (e à sede da Nato). Pode ler-se como um sinal de estreitamento dos laços com a União Europeia?

Sim. É um sinal positivo.

Tendo em conta o peso da Ucrânia, no "triângulo" Bruxelas, Moscovo, Kiev, pode esperar-se alguma alteração no estado das relações entre a UE e a Rússia?

A União Europeia estará muito interessada em ouvir quais são as intenções do senhor Zelensky, em particular, para lidar com a situação de Donetsk. Esta é uma página em branco, de momento, tanto quanto estou a par. Ele disse que queria fazer alguma coisa, mas nós não sabemos o quê. Uma das coisas que podia fazer - e seria diferente de [Petro] Poroshenko - seria desfazer o bloqueio comercial de Donetsk. Penso que foi uma lamentável política na qual Poroshenko foi forçado a entrar, pelos partidos nacionalistas radicais. Essa foi uma má iniciativa, que tornou as relações de Donetsk ainda mais difíceis.

Volodymyr Zelensky fala bem com Moscovo?

Ele disse que, em traços gerais, queria ter uma melhor relação e uma relação construtiva com Moscovo. Mas ele também disse que está aberto ao diálogo, apenas quando os 14 marinheiros [ucranianos] forem libertados. Então ele também traçou uma pré-condição, que é até muito razoável. E, ele deve ficar preso a ela algum tempo.

Depois do encontro de hoje, acredita que haverá espaço de manobra para haver outros diálogos?

Os mecanismos de trabalho funcionam a todos os níveis. Desde cimeiras, ministeriais, grupos de trabalho, tudo isso são mecanismos que funcionam. Do lado europeu isso é concedido e é para continuar. Caberá a Zelensky colocar as ideias dele nestes encontros de trabalho, mas não há escassez de organização de diálogos ou ações de cooperação entre as duas partes. Eles não têm de criar outros.

O pedido de adesão à União Europeia continuará adiado?

Não haverá nada de novo. As lideranças [institucionais] na União Europeia serão substituídas em semanas ou meses. Antes do final do ano, haverá uma total mudança. Qualquer nova iniciativa, de importância estratégica, simplesmente não acontecerá este ano. Então, a tarefa para Zelensky não é apenas estabelecer uma amigável relação com esta liderança cessante de [Jean-Claude] Juncker e [Donald] Tusk, mas também preparar o caminho para ter uma relação construtiva e bem-sucedida com os sucessores deles, que serão nomeados, no decorrer das próximas semanas. A questão da adesão não está na agenda, do lado europeu. De qualquer forma, o aprofundamento da relação, com base no acordo de associação e construir em cima disso, para isso há abertura. E, foi algo que Poroshenko tentou fazer, - não ainda com grande eficácia -, mas é algo em que se pode trabalhar.

Que resultados podem esperar-se deste encontro?

O primeiro verdadeiro resultado é que, para um presidente que tem um background internacional e europeu, é uma forma de se atualizarem os assuntos. Ele pode estabelecer uma boa relação pessoal com o presidente Juncker e Tusk, e também com os funcionários dentro da hierarquia. Se estabelecer uma relação sincera de confiança, a mensagem que pode vir do lado europeu é algo do género: você disse que queria fazer alguma coisa relativamente à corrupção, no seu país, então, ok, vá em frente, [essa é] uma prioridade de topo. E, quanto ao resto, [precisa de] ver bem ao que a Ucrânia está a fazer atualmente, com o acordo de associação e no aprofundamento da zona de comércio livre com a União Europeia. Isso está a ser feito agora, razoavelmente bem. E Zelensky tem de se inteirar disso.

Pode concluir-se que o trabalho de Volodymyr Zelensky com as instituições europeias será dar continuidade do que estava a ser feito por Poroshenko...

O primeiro ponto, é que as relações da Ucrânia com a União Europeia são governadas por um tratado - o acordo de associação. Não se trata de uma política que seja suposto funcionar como um botão que se liga ou desliga. Não é uma medida Poroshenko. Trata-se de um lugar que a Ucrânia reservou e é um mecanismo completamente operacional. Ele não tem que dizer que está a seguir Poroshenko. O que ele tem de dizer é que vê que a União Europeia e a Ucrânia estão a trabalhar em conjunto no acordo de associação e temos de garantir isso juntos de maneira muito séria, e construir em cima disso.

Tanto quanto se sabe, o acordo de associação está a funcionar bem na energia, no sector sanitário, na contratação pública, mas funciona pior nos transportes, cuidados públicos de saúde, ambiente, por exemplo...

A performance da Ucrânia, na implementação do acordo de associação não é perfeita, mas também não e assim tão má. Há muita coisa a acontecer. Mas, isso nunca estará na mão de Zelensky. É uma tarefa para o governo que ele tiver. Assumindo que ele terá [de pois das eleições de julho] um governo que o apoia, depois ele terá de ver se o governo fará um pouco melhor do que Poroshenko.

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