Ucrânia com novo governo, velha crise e sempre sob ameaça russa

Chefe do executivo é conhecido de longa data do presidente Porochenko. Este reforça o seu poder na nova conjuntura política. Questões económicas estão no centro das atenções.

"O novo governo terá um novo tipo de atuação, será responsável pelas suas ações e irá produzir resultados", declarou na tomada de posse o novo primeiro-ministro ucraniano, Volodymyr Groysman.

Groysman, que era presidente do Parlamento até à tomada de posse na passada quinta-feira, é um aliado político do presidente Petro Porochenko e a sua entrada em funções põe fim a uma crise política de dois meses na Ucrânia. O país vive submerso numa grave crise económica, a braços com sérios problemas de corrupção e instabilidade. Uma série de fatores a que há ainda que somar o conflito que persiste no Leste do país, com separatistas pró-russos, apoiados militarmente por Moscovo, a ocuparem parte importante da região. E foi sob este pano de fundo que o chefe de governo agora substituído, Arseni Yatseniuk, tentou resistir durante dois meses a tentativas de afastamento desencadeadas pelo bloco que apoia Porochenko. Yatseniuk esteve em funções dois anos e o seu partido apoia o novo executivo.

Reforço do presidente

Com este desenvolvimento, Porochenko reforça o seu poder, tendo agora um executivo onde pontuam alguns aliados, apesar de ministros de Yatseniuk continuarem em funções em postos-chave, caso da Defesa, Negócios Estrangeiros, Justiça e Interior.

A crise política foi ainda influenciada pelo resultado do referendo holandês - não vinculativo - sobre o acordo de associação União Europeia-Ucrânia. O facto de mais de 60% dos votantes se terem manifestado contra a ratificação do acordo foi considerado um revés para o presidente e para o governo, sendo aproveitado pelos críticos para sublinharem que aqueles estavam a falhar na execução das políticas que permitam a aproximação à UE. Mas, por outro lado, se como disse o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, a ratificação do acordo, que entrou em vigor em janeiro, deixa de ser automática e, se isso vai implicar alterações no seu âmbito, isto não deixaria de ser um tremendo revés para os setores pró-europeus na Ucrânia, que o consideram um passo crucial no reforço das relações bilaterais.

Novos alinhamentos

O governo de Groysman revela um novo alinhamento na política ucraniana: a convergência dos partidos ligados a Porochenko e a Yatseniuk, que somam 227 votos (mais um do que a maioria), estando agora na oposição, o centrista Samopomich (Autossuficiência), o partido da antiga primeira-ministra Iulia Timochenko, de centro-direita e que também integrava a coligação cessante, e os liberais de direita do Partido Radical, liderado por Oleh Lyashko, que rompeu com Yatseniuk em setembro de 2015, por discordarem da concessão de maior autonomia aos secessionistas pró-russos do Leste. Esta nova fragmentação antecipa maior instabilidade política, disse na quinta-feira ao Kyiv Post Balazs Jarabik, ana- lista do Carnegie Endowment for Internacional Peace.

O novo governo surge depois de o nome de Porochenko aparecer associado ao caso dos Papéis do Panamá. O presidente registou uma empresa num offshore no auge da guerra em 2014, tendo sido criticado por estar mais preocupado com as suas finanças do que com o esforço militar da Ucrânia frente à Rússia.

Desencadeado em agosto de 2014, o conflito que permanece latente, com recorrentes violações do cessar-fogo acordado em Minsk em fevereiro de 2015, causou um total de mais de nove mil mortos, muitos deles civis, e quase 1,5 milhões de deslocados internos. Os separatistas controlam vastas áreas da região do Donbass e algumas das suas principais cidades. E de forma recorrente, a partir de Moscovo, surgem ameaças e pressões sobre Kiev. Ainda no dia da posse do governo de Groysman, o presidente Vladimir Putin, falando na sua intervenção televisiva anual, disse esperar que o novo executivo seja "pragmático" e que não antecipa novas "ações militares" no Leste da Ucrânia, mas não deixou de sugerir que a UE e os Estados Unidos "persuadam" as autoridades de Kiev a cumprirem na íntegra os acordos de Minsk. Estes consagram uma extensa autonomia à região.

No discurso de posse, Groysman, de 38 anos, garantiu "tolerância zero para a corrupção" e prometeu realizar as reformas necessárias para o desbloqueamento de 17,5 mil milhões de dólares do FMI. Em fevereiro, Christine Lagarde, diretora do FMI, fizera depender da aprovação de leis nestas matérias a entrega daqueles fundos. Mas o novo chefe de governo, que antes de presidir ao Parlamento de Kiev dirigiu a Câmara da cidade de Vinnytsia, onde Porochenko tem uma das suas principais fábricas de chocolate, não terá a vida facilitada - a Ucrânia tem de começar (praticamente) do zero.

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