"Toda a gente no Japão sabe que a espingarda foi introduzida pelos portugueses e que palavras como pan ou koppu são de origem portuguesa"

Entrevista a Ushio Shigeru, embaixador do Japão em Portugal, que fala das celebrações dos 160 anos de relações diplomáticas, do legado deixado pelos portugueses nos séculos XVI e XVII e também das hipóteses de reforçar a relação económica bilateral. O diplomata abordou ainda a situação na Ásia Oriental, sobretudo a ascensão da China e a ameaça nuclear da Coreia do Norte, assim como o estado da aliança com os Estados Unidos.

O estabelecimento de relações diplomáticas entre o Japão e Portugal aconteceu há 160 anos. Como foi a reabertura do Japão ao mundo, em meados do século XIX, após mais de 200 anos de contactos muito limitados, só através da feitoria holandesa em Dejima?
Era uma época muito complicada. Assistia-se à expansão das ambições coloniais da Grã-Bretanha, da Rússia, também dos Estados Unidos na Ásia. E o Japão estava especialmente atento ao que se passava na China, que tinha já cedido território aos britânicos, refletindo como reagir a estas movimentações dos países ocidentais. Tínhamos consciência do nosso atraso tecnológico. Assim, os xóguns Tokugawa sentiram a necessidade de abrir o país aos ocidentais, embora alguns senhores feudais continuassem apegados aos valores tradicionais e contrários à política de abertura. Mas com a derrota na batalha de Shimonoseki, frente a navios britânicos, americanos, franceses e holandeses, ficou evidente que o país precisava de se modernizar.

Uma embaixada japonesa que em 1862 visitou vários países europeus, incluindo Portugal, foi ainda enviada pelos xóguns, mas foi com o imperador Meiji que a verdadeira mudança no país começou. Quão importante foi a chamada Revolução Meiji, que levou ao afastamento dos xóguns, com o imperador a deixar o papel secundário dos últimos séculos e a assumir a liderança de novo?
A Revolução Meiji resultou da vontade do povo japonês de retirada do xogunato e de a governação voltar ao imperador. Porque o imperador era o verdadeiro símbolo do poder.

Mas o imperador quis mais do que ser simbólico. Fomentou a educação e a industrialização, também a modernização do sistema político, para tentar pôr o Japão em plano de igualdade com o Ocidente. E a verdade é que foi bem-sucedido.
A abertura do país foi imposta pelos estrangeiros e a mudança de regime, com novas instituições, aconteceu como única forma de recuperar do atraso que o Japão tinha em relação aos países europeus e os Estados Unidos. Vimos a situação complicada que vivia a China nesse momento, pressionada pela colonização europeia. Quisemos a modernização para não sofrermos o mesmo tipo de tratamento.

Quando se deu este reencontro em meados do século XIX do Japão com o resto do mundo, havia ainda na população memória dos anteriores contactos, uns 200 a 300 anos antes, com os portugueses?
Sim. As pessoas lembravam-se muito bem dos portugueses. Nos séculos XVI e XVII foi muito intensa a atividade dos portugueses no Japão, tanto comercial como de missionação. Por ter sido tão intensa, essa atividade atraiu as atenções dos meios budistas, muito envolvidos na política, e os portugueses acabaram por ser expulsos. Mas ficou o legado da tecnologia e do pensamento. Toda a gente no Japão sabe ainda hoje que a espingarda foi introduzida pelos portugueses e que palavras como pan, koppu ou botan são de origem portuguesa. E há o famoso bolo de Nagasáqui, o castela, deixado pelos portugueses nessa cidade do sul. E ainda temos os kompeito, pequenos doces inspirados nos confeitos portugueses.

Os portugueses deixaram também o cristianismo, que sobreviveu no Japão às perseguições. É um legado ainda importante?
Os xóguns Tokugawa conseguiram expulsar os navios nanban do Japão em 1639, só permanecendo Dejima como porta para o exterior. Mas os cristãos japoneses, muitos deles seguidores de missionários portugueses, esconderam-se e sobreviveram às perseguições. E continuam até hoje muito presentes em Nagasáqui e em toda essa região.

As celebrações dos 160 anos de relações diplomáticas iniciaram-se com uma exposição em Sintra dedicada ao Património Cultural da Humanidade existente no Japão. Que outras atividades estão previstas?
Vamos ter muitas atividades culturais, como cinema, anime, judo ou caligrafia. Para tentar aproximar ainda mais a cultura japonesa dos portugueses.

Neste ano o Japão organiza os Jogos Olímpicos. Qual a importância desse evento para a imagem do país?
Esperamos atrair muitos visitantes de muitos países, que assim terão oportunidade de conhecer o Japão, o seu povo, as suas tradições, a sua cultura. É uma excelente oportunidade para o Japão se mostrar ao mundo, mostrar como é hoje.

O Japão é a terceira economia mundial. Portugal é um parceiro comercial e de investimento importante, apesar da dimensão média da sua economia?
Espero que o investimento japonês em Portugal prossiga e aumente. Todos os investidores japoneses em Portugal me dizem que as condições económicas são excelentes, e que as empresas estão muito satisfeitas. Sei que os recursos humanos são altamente qualificados e com salários muito competitivos em relação ao resto da Europa. E são trabalhadores muito esforçados.

O imperador Naruhito visitou Portugal quando era ainda o príncipe herdeiro. Desde o ano passado reina, depois da abdicação do pai, Akihito. É possível um regresso a Portugal, em breve?
Sim, sei que ainda como príncipe Sua Majestade, o imperador, esteve em Portugal, em Lisboa e não só, e que gostou muito. Assim, há sempre a possibilidade de regressar. Gostava que acontecesse.

O Japão é um forte aliado militar dos Estados Unidos, também é um parceiro económico importante de uma China com elevados gastos militares. Como lida o país com a competição entre as duas grandes potências do século XX, e com todo um ambiente tenso na Ásia Oriental, sobretudo por causa da ameaça nuclear da Coreia do Norte?
Grande parte da população japonesa está atenta à expansão dos gastos militares da China e diz não estar satisfeita com tal. Diria uns 90%. Mas, de qualquer forma, um vizinho é um vizinho e por isso necessitamos de manter boas relações com a China, até porque esta tem muita influência junto da Coreia do Norte. Claro que temos diferendos com a China, não só por nos querer disputar a soberania sobre algumas ilhas, como também pela forma como se comporta no mar do Sul da China. O Japão, como vários outros países asiáticos, enfrenta este dilema: como lidar com uma China cada vez mais poderosa.

Mas diz contar com a China para refrear a Coreia do Norte. É de Kim Jong-un que vem a maior ameaça para o Japão?
Sim, absolutamente. E contamos com a China para o conter. Além disso, como nosso principal mercado de investimento, decidimos ter relações de cooperação com a China, e na cimeira do G20 no Japão o presidente Xi Jinping veio e conversou com o nosso primeiro-ministro Shinzo Abe, que o convidou a visitar o país na primavera de 2020 como convidado de Estado.

Como descreve a relação atual entre o Japão e os Estados Unidos? A química pessoal entre Abe e Donald Trump chega para ultrapassar críticas do presidente americano como concorrência desleal e necessidade de pagar mais pela aliança militar bilateral?
A relação entre o Japão e os Estados Unidos é muito importante e quando Trump diz que Abe é o seu melhor amigo isso resulta muito bem.

O Japão continua a ambicionar um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, organização para a qual é o terceiro maior contribuinte?
Sim, mantemos essa candidatura, mas sabemos que é de concretização muito difícil.

Sei que na sua experiência diplomática existe uma forte relação com África. Pelo seu passado ainda recente, os portugueses têm uma ligação especial ao continente africano. Crê que pode haver parcerias luso-nipónicas para investimento em África?
Certamente. É uma colaboração de interesse mútuo. Moçambique é já um país onde existe investimento japonês, mas queremos também apostar mais em Angola. Precisamos do conhecimento que Portugal tem desses países, sobretudo os de língua oficial portuguesa.

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