Simone Veil, a mulher afável que é símbolo da Europa de paz

Sobrevivente do Holocausto, a francesa foi a primeira mulher a presidir ao Parlamento Europeu e legalizou o aborto no seu país

"Ao mesmo tempo que era uma pessoa muito reconhecida por toda a gente e com uma imagem pública muito forte, era uma pessoa muito afável, muito próxima, muito simples de contactar, disponível para conversar, muitíssimo amável." É assim que Leonor Beleza, presidente da Fundação Champalimaud, da qual a francesa foi curadora, descreve ao DN o lado pessoal de Simone Veil, que morreu ontem aos 89 anos.

A sua morte foi anunciada ao mundo pelo seu filho, Jean Veil, deixando a Europa de luto. "A minha mãe morreu esta manhã em casa. Ia fazer 90 anos no próximo dia 13 de julho", disse à AFP. Simone Veil nasceu em 13 de julho de 1927 em Nice, no Sul de França, no seio de uma família judia e laica. Toda a sua família foi deportada em 1944 para campos de concentração. Ela, a mãe e uma irmã foram para Auschwitz. Só Simone e as duas irmãs sobreviveram. "Penso que sou uma otimista, mas não tenho ilusões desde 1945", diria mais tarde sobre a sua experiência como sobrevivente do Holocausto.

Feminista inflexível, com fortes convicções morais e republicanas, Veil foi a primeira mulher a assumir as funções de ministra de Estado em França, nos anos 1990, assim como foi a primeira mulher a presidir ao Parlamento Europeu (1979-1982). Mas antes destes dois importantes passos para o papel da mulher, já tinha dado outro: ministra da Saúde, em novembro de 1974, subiu à tribuna da Assembleia Nacional de França para defender os direitos dos milhares de mulheres que todos os anos abortavam clandestinamente no país, conseguindo fazer aprovar a legalização da interrupção voluntária da gravidez.

Depois de abandonar a presidência do Parlamento Europeu, ficou como eurodeputada, tendo liderado, entre 1984 e 1989, o Grupo Liberal e Democrático naquela assembleia. "O facto de ter feito a Europa reconciliou-me com o século XX", disse uma vez.

Simone Veil voltaria à política francesa em 1993 ocupar o cargo de ministra de Estado e da Segurança Social, Saúde e Cidades. Em 1998, assumiu um lugar no Conselho Constitucional, onde se manteve até 2007, ano em que apareceu ao lado de Nicolas Sarkozy na sua corrida à presidência. Personalidade feminina preferida dos franceses, segundo uma sondagem feita há três anos, Veil foi ainda eleita em 2008 para a Academia Francesa, a sexagésima mulher na instituição.

"Possa o seu exemplo inspirar os nossos compatriotas, que nele encontrarão o melhor de França", afirmou o presidente francês, Emmanuel Macron. Este sentimento replicou-se ontem por todos os quadrantes políticos franceses, de Jean-Luc Mélenchon, da extrema-esquerda, a Marine Le Pen,da extrema-direita. As cerimónias fúnebres oficiais são quarta-feira em Paris.

Em Portugal, a morte de Veil também foi recordada. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa considerou que deve ser lembrada como "espírito livre" e "visionária de uma União Europeia ambiciosa e generosa". Já Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, recordou-a pela "defesa de uma sociedade mais justa". "Há as coisas que a gente sabe de longe e que têm que ver com a grandeza da pessoa, com as qualidades extraordinárias que ela tinha, com o papel único que, de certa maneira, lhe coube na construção da Europa, porque ela tinha sofrido pessoalmente o drama da divisão e da guerra e se tornou um símbolo muito importante do que poderia ser uma Europa de paz. Acho isso mais importante que tudo o resto, nos múltiplos aspetos em que foi uma pessoa muito importante", disse ao DN Leonor Beleza.

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