Sete candidatos à procura da vitória nas primárias da esquerda

Socialistas e aliados ecologistas e de centro-esquerda testam hoje o possível peso eleitoral para umas presidenciais que se anunciam difíceis após o mandato de François Hollande.

Tudo indica que Manuel Valls ganhe a primeira volta das primárias da esquerda e também a segunda, que decorre a 29, segundo uma sondagem Opinionway divulgada na quinta-feira. Valls obtém 37%, seguido do antigo ministro da Educação Benoît Hamon, com 28%, e Arnaud Montebourg, com 24%. Na segunda volta, Valls vota a ser o mais votado, com 51%.

Mas a confortável vitória do antigo primeiro-ministro não irá servir de muito, a acreditar numa outra sondagem, do Ipsos, publicada na quinta-feira pelo Le Monde, em que tudo são más notícias para quem quer que seja o candidato socialista. Nesta sondagem, Marine Le Pen surge em primeiro lugar (com 25% ou 26%, consoante os cenários), seguida do candidato de centro-direita François Fillon (com 24% ou 25%) e do ex-ministro socialista Emmanuel Macron (19% ou 21%), que rompeu com os socialistas e fundou um movimento político próprio. Em quarto lugar surge Jean-Luc Mélenchon (com 14% ou 15%), que se define como de esquerda, e só em quinto é que aparece o candidato socialista, no melhor cenário, com Valls tem 10%, no pior, com Hamon ou Montebourg, não passa dos 7%.

Números que mostram a dimensão da crise entre os socialistas, que vivem uma situação de extrema fraqueza eleitoral. O que levou alguns deputados do partido a apelarem ao vencedor da primária - qualquer que ele seja - a desistir a favor de Macron.

Outras personalidades deixam no ar a hipótese de se desvincularem do partido e aderirem ao movimento de Macron, o que não deixará de ter repercussões nas legislativas de 11 e 18 de junho, afetando o desempenho eleitoral dos socialistas. "A grande recomposição da esquerda, anunciada desde há muito, vai certamente, desta vez, produzir-se após as presidenciais e as legislativas", comentava La Tribune a propósito das notícias das deserções entre os deputados socialistas.

A crise no partido e o futuro ajudam a explicar a proliferação de candidaturas, seis homens e uma mulher, que irão mobilizar, segundo o Ifop, entre 1,9 e 2,6 milhões de votantes, ou seja, entre 4% e 6% do eleitorado francês. Mais uma vez, os números não são brilhantes. Nas primárias da direita, votaram 4,2 milhões na primeira volta e 4,3 milhões na segunda. E mesmo na estreia do processo das primárias em França, pelos socialistas em 2012, o nível de participação foi superior ao previsto para a votação de hoje - 2,8 milhões de votantes.

A campanha foi movimentada e em crescente tom de crispação entre alguns dos candidatos, que mais se atacaram entre si, especialmente nos três debates televisivos, do que apresentaram propostas sólidas. Em particular no último, realizado na quinta-feira, com aqueles que tiveram cargos de maior responsabilidade governativa - Valls, Montebourg e Hamon - a serem visados pelos restantes. E todos de armas apontadas a Emmanuel Macron, indicando claramente que a sugestão de uma desistência a favor do antigo ministro da Economia de Valls não está nas intenções de nenhum dos candidatos às primárias da esquerda.

No plano da violência, chegou a verificar-se a uma agressão a Valls, alvo de um independentista bretão de extrema-direita, que lhe deu uma bofetada durante uma deslocação do ex-primeiro-ministro àquela região

O balanço dos debates pode aferir-se pelos números de uma sondagem Ifop, divulgada na sexta-feira. Interrogados sobre se tencionavam votar motivados pelos argumentos apresentados pelos candidatos nas suas prestações televisivas, 57% dos inquiridos declararam um total não. Noutro cenário, recorrendo a uma escala de um a dez, 81% declararam-se "desinteressados" e 9% "possíveis interessados". Apenas 10% se declararam "certos" de irem votar, o que representa um universo de 1,8 a 2,2 milhões de eleitores sobre uma possível participação.

A segunda volta realiza-se de hoje a uma semana entre os dois mais votados e a 5 de fevereiro decorre a convenção nacional de investidura do candidato escolhido.

Os candidatos

Manuel Valls

Primeiro-ministro entre 2014 e dezembro de 2016,fora antes ministro do Interior. Nascido em Espanha, naturalizou-se francês aos 20 anos. Nas anteriores primárias da esquerda teve apenas 5,63%. Centrista, defensor do capitalismo e de uma segurança forte, as suas ambições ao Eliseu são conhecidas de há muito. Mas, mais do que uma vitória em 2017, traça uma estratégia a pensar em 2022. Tem 54 anos.

Arnaud Montebourg

Antigo ministro da Economia (2012-2014), apresenta-se como crítico da austeridade e das políticas liberais. Nas anteriores primárias teve 17%. Integra a ala esquerda dos socialistas. Tem 54 anos.

Benoît Hamon

Integra a ala esquerda dos socialistas. Foi ministro da Economia Social (2012-2014). Defende a redução do horário de trabalho, um rendimento social garantido, políticas ecológicas e a legalização da canábis. Tem 49 anos.

Sylvia Pinel

Dirige o Partido Radical de Esquerda (centro-esquerda). Foi ministra do Artesanato e do Comércio e, em seguida, da Habitação (2012 a 2016). Deputada desde 2007, apresenta-se como a candidata da "esperança" e da "audácia". Tem 39 anos.

Jean-Luc Bennahmias

Fundador do MoDem (centrista e liberal) com François Bayrou, em 2007, trocou este partido pela União dos Democratas e Ecologistas, de que é um dos principais dirigentes. Apoiou Hollande em 2012. Tem 62 anos.

François de Rugy

Presidente do Partido Ecologista, sempre foi visto como próximo dos socialistas. Apresenta-se como o candidato da "reunião" e do debate entre as "diferentes sensibilidades da esquerda e dos ecologistas". Tem 43 anos.

Vincent Peillon

Surge como defensor da presidência de François Hollande. Foi ministro da Educação (2012-2014) e eurodeputado. Passou por diferentes fações dos socialistas e apoiou Hollande em 2012. Tem 56 anos.

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